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REFLETINDO SOBRE CONSTITUIÇÃO E INVISIBILIDADE DO SUJEITO COM O CONTO “O VAMPIRO DE CURITIBA” DE DALTON TREVISAN

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O  Vampiro de Curitiba.

Ai, me dá vontade até de morrer. Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. É uma que molha o lábio com a ponta da língua para ficar mais excitante. Por que Deus fez da mulher o suspiro do moço e o sumidouro do velho? Não é justo para um pecador como eu. Ai, eu morro só de olhar para ela, imagine então se. Não imagine, arara bêbada. São onze da manhã, não sobrevivo até a noite (…). (Trevisan – fragmento do conto).

O conto “O Vampiro de Curitiba” de Dalton Trevisan pode evidentemente ser definido de uma forma representativa como uma manifestação conflituosa que se processa entre o estereótipo da boa conduta social e o modelo desvirtuoso de certa imoralidade. Isso não parece ser difícil de ser percebido, uma vez que a posição do narrador-personagem se insere num olhar não totalmente desarticulado da realidade comum, contemporânea. Entretanto, devemos questionar: esta posição que o narrador ocupa e que serve perfeitamente (no conto) como marca decisiva para o entendimento de todo o processo narrativo pode ser estendida ao caráter problemático de certa universalização da moral?

 Se respondermos a esse questionamento pela afirmativa estaremos levantando uma problemática nada fácil de ser explicitada, embora pareça simples. Contudo, este parece ser o caminho para chegarmos a uma compreensão segura tanto do ser, quanto da sociedade que ele está inserido. Assim, quando lançamos os olhos sobre essa problemática, podemos perceber uma sociedade fragmentada como resultado de um ser humano fragmentado. Visivelmente o ser se firma como meio para certas mudanças tanto no que diz respeito à sua conduta, quanto no que se refere à defesa e a prática de princípios estabelecidos.

Para que isso fique claro, devemos compreender o fato de que diversos são os debates teóricos, sobretudo, em nossa contemporaneidade que diz respeito à identidade, à posição e a função do sujeito. Em um tom lúcido e questionador parecer sugerir certa especificidade e abrangência. Dessa forma, questionamentos diversos surgem, não obstante, como necessidades tornando-se ponto de partida.

Não raro perguntamos o que de fato é esse “eu” que se insere construindo a sociedade. Um “eu” que faz, observa, critica e se depara com os saberes de seu tempo. Esse “eu” que está nesse fluxo, nessa temporalidade parece ir num ponto bastante alto onde a sua história revela uma fragmentação, indubitavelmente fleches que se moldam para formar um todo.

Neste sentido, podemos questionar: o que é o sujeito e o que faz com que ele num tempo e numa contingência seja o que é?

A princípio percebemos o fato de que o ser se constrói a partir de duas perspectivas totalmente articuladas sem obrigatoriamente expelir uma a outra. Entretanto, nisso reside as suas particularidades sem apresentar a posição que o sujeito ocupa. Quer dizer, de um lado há a identificação do sujeito a partir de sua caracterização individual, subjetiva. De outro, há a referência aos aspectos sociais indispensáveis para toda essa reflexão.

Evidentemente, a posição do personagem do conto é a de quem observa. No seu campo de visão se encontram diversas mulheres que, por sua vez, despertam nele desejos sexuais. Todavia, se vê impossibilitado de realizá-los por dois motivos precípuos. Primeiro, embora se considere simpático não acha que seja provido de beleza que na sua visão é algo essencial. Segundo, não parece lhe ser dado o espaço necessário para que possa despertar o mínimo de atenção e sair de sua invisibilidade.

“A tradição moderna dominante no estudo da literatura trata da individualidade do indivíduo como algo dado, um âmago que é expresso em palavras e atos e que pode, portanto, ser usado para explicitar a ação: fiz o que fiz porque sou quem sou e para explicar o que fiz ou disse você deve olhar para o “eu” (quer consciente ou inconsciente) que minhas palavras e atos expressam. A “teoria” tem contestado não apenas esse modelo de expressão, em que atos ou palavras funcionam expressando um sujeito anterior, mas a prioridade própria do sujeito”. (Culler, 199.p, 107-108)

Segundo Culler, o sujeito está atrelado ao meio, isto é, a uma séria de desejos e valores que o sistema coloca. Isso quer dizer que pensamentos e ações são determinados por algo exterior ao próprio sujeito e nisso reside o que Michel Foucault chama de “descentralização”. No processo de constituição o ser humano é determinado por essas forças. Dessa forma, não deve ser definido como individualidade isolada do contexto social.

Definitivamente, o que o sujeito carrega como valor, como ideal, etc, está em conformidade como o já estabelecido. Sua constituição é permeada por um processo característico que o define.

No conto, por exemplo, vemos um personagem inserido em uma sociedade aparentemente machista marcada por um padrão de beleza e virilidade. A virgindade embora não seja marca de um ideal de pureza necessariamente, é explicitada como intenso desejo de posse. “Não quero no mundo mais que duas ou três só para mim” (Trevisan).

(…) “Este, aliás, é o maior talento de Dalton Trevisan – a manipulação aficaz dos diferentes códigos sociais (que permite que um simples “cachacinha” inserido no momento adequado descortine todo um cenário suburbano).

O problema é que não há crítica nesse manuseio. Bem ao contrário, ele serve para reafirmar preconceitos e marcar a diferença entre nós, cosmopolitas, consumidores de arte, conhecedores de bons vinhos e da boa mesa, e essa gente, que enche acara e passa o dia se engalfinhando – patéticos em sua animalidade”. (Regina alcastagnè, 2002)        .

De acordo com essa autora, Trevisan em contos curtos peca pela falta do aspecto crítico necessário para a representação verdadeira do outro. Segundo ela, a omissão dessa crítica acaba por legitimar velhos preconceitos sem antes esclarecê-los e combatê-los. Afirma que Trevisan faz de seu cinismo um estilo e que assim trata os pobres e marginalizados com mais desprezo, diferentemente da forma como trata as elites.

Para todo caso, esse conto “O vampiro de Curitiba” embora curto possui sim, de certa forma, uma crítica se não à sociedade diretamente ao menos às condutas femininas dessa sociedade. Dessa forma, temos a mulher virgem – quase vulgar – que se objetiva em provocar os homens, “se não quer porque exibe as graças em vez de esconder?” (Trevisan). Podemos ver também a mulher que trai o marido, “veja, parou um carro. Ela vai descer. Colocar-me em posição. Ai, querida, não faça isso: eu vi tudo. Disfarce, vem o marido, raça de cornudo” (Trevisan).

Posto isso podemos compreender também que no conto a invisibilidade do sujeito representa, sobremaneira, uma característica bastante ostensiva na sociedade contemporânea que é a solidão. “Tem piedade senhor, são tantas, eu tão sozinho”. (Trevisan). Essa fala do narrador-personagem pode, evidentemente, representar uma espécie de solidão tida como “solidão acompanhada”, ou seja, o personagem se sente só mesmo que diante de outras pessoas. Isso quer dizer que a sua posição se firma com a presença do outro embora esse “outro” pareça não afirmá-lo.

Aqui a ideia de representatividade deve ser encarada, precisamente, como uma tentativa que busca pelo olhar do outro. Se não seguisse essa perspectiva o conto perderia toda a sua relevância uma vez que o personagem em todo momento deseja ser visto, observado. Portanto, sair da invisibilidade que o enclausura, que o condiciona a observar e não a ser observado. “Desgraçada! Fez que não me enxergou” (Trevisan).

Assim, o sujeito, porque inserido em um meio social, se descortina mostrando-se como personalidade fragmentada e individual. Nem sempre se firma em meio à contingência como visibilidade atuante. Sua constituição pode evidentemente ser concebida nessa evidenciação: de um lado sua individualidade muda, de outro certa contingência que o concebe inserida em um meio que o define.

Referência bibliográfica

DALCASTAGNÈ, R. Uma voz ao sol: representação e legitimidade na narrativa brasileira contemporânea. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, v. 20, p. 33-77, 2002.

CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca produções culturais Ltda, 1999.

MARICONI, Ítalo. (Organização, introdução e referências bibliográficas). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

TREVISAN, Dalton. O vampiro de Curitiba. São Paulo: Editora Record, 2017.

[1] Leon Cardoso da Silva é professor, escritor, poeta e crítico literário. Possui graduação em Letras Vernácula e Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e especialização em Estudos Linguísticos e Literários.

Por Leon Cardoso da Silva[1]

 

Mancha Surrealista

Existem várias “big pictures” existenciais – espiritual, política, social, cultural, entre outras. A certa altura da vida, ciente disso ou não, um ser racional, para ser reconhecido pelos pares como tal, precisa escolher um determinado ponto em cada quadro existencial para ali se alojar, tornando-se, muitas vezes, um elemento fixo da imagem.

Desse ponto que lhe oferece uma cômoda e paralisada segurança, avista apenas o que os olhos alcançam e, sem experimentar o pixel alheio, sobre ele adota conclusões. Forma convicções a partir de uma imagem em baixa resolução, sem qualquer esforço num sentido HD – talvez por medo da alta e, por vezes, dolorosa definição. Há uma fé inabalável no ponto de vista adotado, em muitos aspectos, contado por um “telefone sem fio” presente na História.

Por que estou dizendo isso? Porque quando caio em determinados pixels, depois de me debater dentro deles, tento escapar e me torno uma espécie de andarilha sobre tinta fresca. Não consigo estacionar, achar vaga num exato lugar, onde caiba o tamanho da confusão que é a minha certeza, e onde se encaixe a incerteza que é a minha verdade.

Admiro a satisfação e a tranquilidade que vejo no fundo do olhar dos que acreditam – não, não faltou o objeto indireto – é que esse “acreditar” é um tanto intransitivo, devido aos incontáveis e robustos complementos confusos, que não conseguem transitar pelo túnel estreito da minha mente descrente.

Não sei tirar uma conclusão absoluta sobre algo que observo à distância, por meio dos meus parcos sentidos humanos, ou porque me disseram ou, ainda, para me sentir segura e apoiada pelos habitantes de um único e apertado pixel. Evito propalar qualquer ponto de vista não experimentado, por pura consciência da minha ignorância sobre o grande quadro. Minha humanidade simplesmente não me deixa alcançar a altura necessária sobre a tela, para enxergá-la por inteiro e em alta definição.

Fragmentos de realidades me inquietam.

Troca de adjetivos nos debates entre habitantes de diferentes pixels me irritam.

Em discussões, as efusivas manifestações de apreço ou desapreço, em regra, denotam uma incapacidade de argumentação na defesa inócua de um único ponto de vista. Mas há quem entenda que a não adoção incondicional de um pixel, um grupo, um time, um clube, um partido, uma religião, uma verdade absoluta é atitude de pessoas alienadas, sem senso crítico ou opinião… e lá vem um arsenal de pedras lançadas de todos os lados, por egos inflados e sem imaginação.

Há um fenômeno um tanto interessante, para não dizer angustiante, sobre isso. No que diz respeito especialmente à política, observa-se uma típica anexação entre habitantes de pixels distintos, provenientes de outros quadros existenciais, que se reorganizam em apenas dois blocos, ou lados, pintando uma tela um tanto monótona e, por vezes, tosca. Para muitos, o lado escolhido deve ser vitalício, e qualquer membro do bloco “oposto” deve ser considerado seu arqui-inimigo. Esses seres maniqueístas, autoclassificados como racionais e conscientes, desconsideram que ambos os lados são preenchidos por seres humanos individualmente bons e maus, ignorantes e sabedores, cheios de dualidades, mutáveis e perecíveis.

Definir-se a si mesmo como um pixel, ou um lado, pode provocar um defeito no pensamento racional, que acaba descontextualizando fatos e ideias, colocando-os nesse ou naquele polo, estancados da sua realidade complexa e integral. Pensamentos e fatos passam a ser resultados da visão viciada: “O que vem do meu lado está certo e o que vem do seu lado está errado. Ponto final” – uma simplicidade cômoda e conveniente ao ego.

Vemos e vivemos, diariamente, as consequências de escolherem-se pixels como verdades absolutas, ou como se fossem a paisagem inteira. Adotar ferrenhamente um ponto de vista, sem o conhecimento ou a simples aceitação de outros pontos de vista, suscita opiniões, conclusões e decisões tendenciosas, passionais e até mesmo extremistas, gerando consequências desastrosas na evolução de uma sociedade.

Tentar dialogar com “mentes pixels” é um dispêndio de energia estéril e entediante e, às vezes, até deprimente. Não há debates produtivos e evolutivos, mas comportamentos infantis, irracionais e beligerantes. Basta observar grande parte das discussões em redes sociais, onde se nota que as partes em conflito abrem o filtro afetivo apenas para fatos e opiniões que sedimentam a própria convicção, e anestesiam os neurônios frente àqueles que a contrariam.

Isso acontece por vários motivos, entre eles: preguiça de escalar muros, aqueles mais altos, normalmente censurados, que separam pixels e blocos e possibilitam uma observação mais ampla de uma perspectiva menos egoica; preguiça de ir à caça de informações objetivas e contextualizadas de fontes imparciais, com o fim de construir uma opinião própria; insegurança e medo de ser banido ou criticado pelos habitantes do pixel escolhido, perdendo sua proteção; necessidade de ser aceito, acompanhado e aplaudido pelo grupo; medo de desabar, ao ter que se desfazer de algum fundamento ou valor de vida, sobre o qual uma estrutura pessoal foi construída.

Obviamente, o presente texto pode ser, ele mesmo, mais um ponto de vista, ou até mesmo uma mancha surrealista, resultado de vários pixels embaralhados. O fato é que essa “mancha” me traduz e não me deixa habitar, impassível, categorias e grupos, ou pontos, sejam pontos de vista radicais ou pontos finais assertivos demais. Recuso grupos dogmáticos, que impõem crenças ou pregam o desrespeito ou a absoluta ausência delas, sem margem a questionamentos, destruindo a capacidade dos seus integrantes de desenvolverem, mudarem, aperfeiçoarem ou mesmo abandonarem ideias preconcebidas. Esquivo-me o quanto posso, mas sei que é impossível não pertencer a nenhum grupo e, ao mesmo tempo, viver em sociedade. Ainda assim, procuro manter a consciência de que grupos, classes e categorias não me definem, para oferecer a mim mesma outras perspectivas.

Por tudo isso, ao interagir com o outro, tenho o hábito temerário de não observar se ele está inserido em algum grupo ou qual grupo é esse. Sei que essa atitude pode trazer consequências embaraçosas, porém, a mancha surrealista me faz ver os outros assim: puramente, indivíduos além de mim.

Somos todos seres humanos singulares unidos pela vida, agrupados aqui e ali, devido à interdependência inata à nossa espécie – pois, entre outros fatores, grupos organizados e conscientes são mais produtivos, prósperos e felizes do que indivíduos isolados. Mas não podemos perder de vista o respeito à individualidade e ao fato de que todos dividimos um único e colossal ponto de vista em comum – a belíssima tela-esfera azul – esse, sim, um indeclinável e valoroso ponto, ainda íntegro, girando no espaço.

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O texto acima não tem a pretensão de sugerir qualquer conhecimento científico ou acadêmico específico. Trata-se apenas de um conjunto de reflexões e divagações da autora.

(Sandra Boveto)

http://www.sandraboveto.com

UM DÓLAR POR DIA. VERGONHA COLETIVA

Este é um crime do qual todos nós somos culpados perpétuos: 1,2 milhões de pessoas, vítimas da pobreza extrema, vivem com apenas um dólar por dia.

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“O Comitê Nobel norueguês atribuiu o prêmio ao pioneiro do microcrédito Muhammad Yunus e ao Banco Grameen, fundado no Bangladesh, que demonstraram que mesmo os mais pobres dos pobres podem trabalhar para criar o seu próprio desenvolvimento”.

Estudiosos do mundo desenvolvido, que também são vítimas do consumismo exacerbado praticado no ocidente, acreditam que a pobreza está intimamente relacionada com a falta de educação. Estes senhores bem nutridos culpam os pobres pelo descontrole social do planeta, chegam ao extremo absurdo de dizerem que as guerras cessariam se todos os seres humanos tivessem o que comer e o que vestir. Pensam que a paz global seria conquistada com alguns pedaços de pães e alguns copos de água potável.

No mundo todo, cada pessoa dentro de um grupo de seis sobrevive com um dólar por dia. O que se pode comprar com um dólar? No Brasil, por exemplo, talvez se compre um litro de gasolina, dependendo da variação do câmbio. Ou quem sabe meio quilo de carne de segunda, ou um litro de leite. Se pararmos para pensar, que gastamos R$ 20 em média para tomar um café expresso e uma garrafa de água mineral em um shopping qualquer de Brasília – nós sentiríamos ricos.

Alimentamos um monstro vorás diariamente com o nosso consumismo. Há um provérbio que diz: “Não usamos dois pares de sapatos ao mesmo tempo”, todavia, gostamos de acumular, saber que em casa há outras dezenas ou centenas de outros pares de sapatos que nos dão uma falsa segurança. Isto ocorre com quase tudo que usamos: camisas, relógios e até computadores e celulares. Guardamos muitas coisas supérfluas, muitos objetos dos quais certamente nunca faremos uso.

Os governos preferem oferecer ajuda ao invés de oferecer oportunidades. “Bolsa pobreza” por aqui tem o famigerado nome de “bolsa família”. A pobreza é fruto ácido que as políticas públicas produzem inversamente. A corrupção e a má gestão travam o crescimento do país. Com isto, as empresas cortam gastos e mão de obra, e o resultado está aí. Estamos vivendo, sobretudo no Brasil, uma crise que logo se transformará em recessão aguda. Com isto, os que antes eram pobres, amparados por bolsas e outros benefícios do estado se tornaram cada dia mais carentes, miseráveis sem esperança, sem futuro e logo não terão sequer um dólar por dia para alimentar seus filhos.

A pobreza extrema, segundo dados internacionais, é “viver” com menos de um dólar por dia e pobreza moderada com menos de dois dólares (1,60 euros), estimando que 1,2 mil milhões de pessoas se encontram no primeiro caso e 2,7 mil milhões no segundo.

Apenas na África, 314 milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia. Não temos estudos sérios com respeito ao Brasil, porque aqui tudo é maquiado, até as contas do governo, para vender um país que estaria dando certo, que venceu a pobreza e a falta de condições mínimas de sobrevivência e cidadania. Contudo, existe um país que não conhecemos, ou que ignoramos – um Brasil que sustenta a política imoral e corrupta, que ora está sendo exposta ao mundo. Eis a nossa maior vergonha coletiva e a causa da nossa miséria social: A política paternalista que não dá dignidade ao cidadão, ao ser humano.

Por Evan do Carmo http://www.evandocarmo.com

A intolerância intolerável – Ser humano é ser desigual,

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Evan do Carmo

Do pressuposto de que todos os seres humanos se originam de Deus, fato este que pode ser facilmente constatado e compreendido, pelo complexo expediente da razão, comum em todos nós; uma vez que os animais, por serem movidos pelo instinto não odeiam seus semelhantes nem premeditam o mal. Logo, os seres humanos mais evoluídos na complexidade heterogênea da humanidade, devem perceber que as diferenças físicas, culturais e emocionais, são na verdade a nossa maior riqueza espiritual.

Todavia, esta mesma heterogeneidade sempre foi a mola propulsora para o desenvolvimento do preconceito, e de toda sorte de violência, por todos os tempos idos e vividos. Por séculos temos experimentado muitas formas de intolerância: religiosa, cultural, racial e, sobretudo social. A cor da pele, o credo professo, a ideologia política, e, atualmente está em voga o preconceito sexual de forma exacerbada, como nunca se vivenciou.

Ser humano é ser desigual, esta realidade ainda está oculta a muitos espíritos, à maioria dos homens deste planeta subdesenvolvido. O homem rude, aquele que não praticou de forma cabal a sua humanidade, desconhece, portanto, este princípio moral e divino: fomos feitos desiguais para que vivenciássemos várias experiências, e estas são capazes de nos tornar criaturas melhores, mais generosas, humanas.

No entanto, onde reside a causa de nossa estupidez, no que tange a intolerância? Se realmente somos racionais, o que é que nos falta para compreender e praticar a tolerância? Esta pergunta deve ser a premissa para começarmos a mudar o mundo, todavia, este mundo que ainda não conseguimos transformar, é a nossa própria mente arraigada no obscurantismo tribal, onde habita toda sorte de vestígio de desumanidade.

Não precisamos ir muito longe, ou tratar este tema de forma universal, evocando aqui as grandes guerras, os genocídios dos índios americanos, o terror africano do Boko Haram, as cruzadas da idade média, ou mesmo o grande holocausto ariano. Talvez aludindo ao massacre sírio, sob a égide do Estado Islâmico. Nos basta averiguar o que ocorre em nossa volta, o desequilíbrio emocional que afeta toda esta geração de pessoas intolerantes. São intolerantes com os diferentes, em qualquer contexto, seja étnico, social ou religioso. Cometem as piores barbáries, crimes violentos no futebol, na política, no mundo dos negócios, influenciadas pela ganância e pelo desejo de ter mais poder.

Nunca foi tão perigoso expor nossas opiniões, seja sobre qualquer assunto, contudo, pessoas que são intolerantes em qualquer realidade, física ou virtual, mesmo que seja apenas por simpatia a um determinado grupo, ideologia ou crença, revelam uma estupidez sem par, desconhecem, portanto, a natureza humana, sobretudo revelam sua imensa ignorância com respeito á própria essência humana, heterogênea que é a soma de toda nossa vivência com a natureza desigual.

Relembro aqui o pensamento universal de Leon Tolstoi “Se queres mudar o mundo começa pintando tua aldeia” Não será perseguindo, agredindo e matando a minoria que iremos transformar o mundo, ou talvez construí-lo à nossa maneira, pois sempre haverá aqueles que nos serão distintos: na cultura, nos gostos culinário e musical, na opção sexual, na política ideológica, na crença ou na descrença. Somos diferentes por natureza, e devemos ter em mente, de forma constante e consciente, que todos os seres humanos possuem sua própria visão sobre o universo, do qual todos nós querendo ou não, fazemos parte.

ÉTICA HUMANA

“Quando os homens são éticos, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis. ”

Para iniciar este ensaio, me apossei deste pensamento de Benjamin Disraeli, apenas troquei a palavra puros, por éticos. Na sociedade humana, hoje regida por boas leis, ainda não compreendemos corretamente a razão da falta de justiça e paz no mundo. As leis, embora feitas por homens bem-intencionados, não raro são baseadas em princípios divinos, inspirados por leis que remontam a antiga Grécia, contudo, não são suficientes, pois os homens não são capazes de se auto governar, a prova é que os vários tipos de governo já experimentados, nenhum deles se mostrou eficaz para corrigir antigas mazelas da sociedade organizada.

Há, na obra judaica, no livro de Eclesiastes, livro este elogiado por grandes eruditos como Harold Bloom, tem um pensamento intrigante, onde reza: “Homens têm governado homens para seu próprio prejuízo”, em outra referência da mesma fonte inspirada, diz assim: “Bem sei oh Deus que os homens não são capazes de dirigir os seus passos. ”
Jesus Cristo, em seu famoso sermão da montanha, registrado por seus leais seguidores, fala sobre uma regra de ouro capaz de resolver todos os problemas étnicos, sociais e jurídicos da humanidade, diz o Cristo: “Portanto, tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. ”

Este pensamento universal antigo, de boa moral humana, todo em parte, a sua essência pode ser encontrada em várias religiões. No Zoroastrismo, (Cerca de 660 – 583 a.C.) No Budismo, (Cerca de 563 – 483 a.C.), Não importa sua autoria, e sim seu ensinamento, que de fato, se for posto em prática resolverá todos os conflitos armados do mundo.

A ideia do bem e do mal sempre foi assunto de preocupação para as grandes almas, que já viveram neste planeta. Desta forma, cada um deixou sua contribuição, como um elo, que se for juntado aos demais, e sobretudo posto em prática poderia melhorar bastante a situação do homem terreno.

Aristóteles começa sua Ética com estas palavras:
“Toda arte e todo saber, assim como tudo que fazemos e escolhemos, parece visar algum bem. Por isso, foi dito, com razão, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem, mas há uma diferença entre os fins: alguns são atividades, ao passo que outros são produtos à parte das atividades que os produzem. ”
Platão:
“O Bem ilumina o ser com verdade, permitindo que seja conhecido, assim como o Sol ilumina os objetos e permite que sejam vistos – nota-se aqui a analogia entre Bem e Sol apresentada no mito da caverna.”

A Ética de Epicuro
“A cada desejo é conveniente perguntar: que sucederá se for satisfeito? Que acontecerá se não for satisfeito? Só o cálculo cuidadoso dos prazeres pode conseguir que o homem se baste a si próprio e não se converta em escravo das necessidades e da preocupação pelo amanhã. Mas este cálculo só se pode ficar a dever à virtude da sabedoria, que é mais preciosa que a filosofia, porque por ela nascem todas as outras virtudes e sem ela a vida não tem doçura, nem beleza, nem justiça.
Em minha opinião não sei conceber que coisa é o bem se prescindo dos prazeres do gosto, do amor, dos prazeres do ouvido, dos que derivam das belas imagens percebidas pelos olhos e, em geral, todos os prazeres que os homens têm pelos sentidos. Não é verdade que só o gozo da mente é um bem; dado que também a mente se alegra com a esperança dos prazeres sensíveis em cujo desfrute a natureza humana pode livrar-se da dor”.

Sempre tentando encontrar uma regra ou uma norma ideal de vida, onde o homem possa ser íntegro, feliz e ao mesmo tempo moralmente bom ou puro, estes sábios indicaram um norte, mas que nunca foi seguido de perto por muitos homens, é fato que alguns poucos souberam aproveitar este conhecimento milenar para regrar suas vidas. Mas, infelizmente, em uma sociedade plural, como modelo de vida ou de governo nunca foram aplicadas tais normas de conduta.

As leis existem para tipificar crimes e ilícitos. Nós sempre fomos competentes para criá-las, até mesmo com exacerbado exagero, todavia, nunca fomos capazes de seguir, em sua real inteireza e essência uma única sentença divina, a regra de ouro do Cristo, ou de tantos outros que a proclamaram.

“Portanto, tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. ”

Por Evan do Carmo

SONHAR É PRECISO

E a noite vai aparecendo, pouco a pouco, exibindo seus sons característicos. Os elementos da natureza, quais fossem dedos de Deus, vão apontando para o céu em direção ao universo, nossa origem e pátria verdadeira. Daqui a pouco chega a hora da “ave Maria”, mágica, hipnotizante, conclamando nossos espíritos à reflexão e a adotar uma posição respeitosa e silenciosa frente a vida. Tudo parece conspirar para um término em nosso ciclo diário, nos chamando para uma sessão do tipo “olhar para dentro”, um avaliar de posições. O empresário mais bem sucedido na matéria pode não ter caminhado um milímetro na senda da evolução espiritual. A reflexão interior pode nos fazer perceber o quanto ainda precisamos caminhar na “escada de Jacó”, fé, esperança e caridade, para retornar a nossa pátria universal. A consciência de nossa pequenez, no entanto, também nos faz mais fortes em busca de nossos caminhos e nos coloca no devido lugar em relação à hierarquia cósmica. Ainda estamos saindo da matéria, rastejando, ralando o corpo e a alma em infinitas quedas, tentando achar as saídas para o espírito, mas com os olhos do corpo de carne. Assim nunca as encontraremos. É preciso olhar para o alto, mas enxergar Deus dentro de nós mesmos também é fundamental. O processo é de dentro para fora e de fora para dentro. A verdade pode ser meio frustrante, mas precisamos nos despir de orgulhos, preconceitos e arrogância, para podermos reconhecer o que deve ser feito para melhorar.

Sonhar é preciso… sempre. O universo pertence aos sonhadores que o construíram. Nós fomos concebidos e vivemos dentro de um sonho, um verdadeiro milagre de Deus.

Amor e luz sempre…

José Paulo Fusco

Érico, Cada Vez Mais Veríssimo
Um dos dez maiores escritores brasileiros de todos os tempos, fez cem anos em 2005, e finalmente recebeu o reconhecimento definitivo que a sua vasta obra escrita merece, e foi totalmente reeditado pela famosa Editora Companhia das Letras de São Paulo em condições especiais até mesmo de divulgação e de impressão. Nada mais justo.
“Ler Érico Veríssimo é essencial para a compreensão da mentalidade brasileira…”
(Moacir Scliar)
Falando por mim, por exemplo, eu “aprendi” a escrever com o Mestre Érico Veríssimo, um nato contador de histórias compridas, regional e universal ao mesmo tempo em que altamente produtivo – canta a sua terra e serás eterno, diria Tolstói – além do homem que sempre surpreendeu a algumas categorias históricas (e histéricas) rotuladas por fugir dos vareios de paradoxos a seu respeito; de discussões sobre o sexo do anjo em braile sobre sua postura em si, porque ele mesmo foi sim, um homem simples, comum, do povo, que se misturava com o povo e se parecia com o povo, produzindo uma ficção humanista, mais os seus profundos olhos apreendedores de captar conflitos reais vivenciados, ou espetaculares histórias imaginárias que prendiam o leitor pela palavra, com começos, meios e fins, como se nos tomasse pela mão e nos dissesse, “venha, vamos comigo por essa havência que vou lhe prosear direitinho de cor e salteado”. Ave Érico. Quem sabe, sabe. Relendo-o, a pretexto de, também – lazer e cultura – me reconhecer nesses brasis gerais de pagos sulinos, fica-nos a impressão de um despojo nas criações, uma felicidade de produzir gostoso mesmo que como válvula de escape às vezes por problemas no clã, daí a nos ascender nas primeiras escritas, releituras e proseios magnos desse estupendo gaúcho-brasileiríssimo e universalmente de há muito reconhecido. Sim, é preciso reler Érico Veríssimo com olhares novos e sem nódoas de intenções rotuladas por épocas de utopias (e transgressões de rebeldes sem causas); alguns pseudos-críticos de ocasião que enxergavam o que não existia e assim tramaram tramoias que, certo, não atingiram Érico Veríssimo que, certamente continuou produzindo a todo custo, pleno e a todo vapor, sem rodeios. Ele mesmo inteiro, apreciado no mundo todo mesmo quando aqui o queriam encurralar com ditames inócuos ou vis. Seus livros eram suas viagens, sua pátria era a sua escrita; sua derrama de olhos especiais era o dizer-se em romances que marcaram épocas e alimentaram fantasias, ilusões. Um craque nisso. Por isso, o tempo – o melhor juiz, claro – o revalora então. Muito justo.
Sim, é preciso reler Érico Veríssimo, do épico “O Tempo e o Vento”, ao “Incidente em Antares” (que estou adorando reler miudinho nesses tempos de vacas sacras) – acho que é uma das melhores obras dele e uma das melhores do Brasil de mais de 500 anos – bem ao meu gosto em seu adorável estilo. Li tudo do Érico quando ainda saindo das barras das saias da mãe de sangue e da terra-mãe, para o aprendizado de renúncias afetivas, a descoberta da palavra pelo ensino-aprendizagem, da leitura pela fuga-ilha-crusoé, do desmundo acima desse mundo cão, quando ali me fiquei hospedeiro e noiteadeiro a tirar proveito de Érico para ser-me, ser-me Ser e, acima de tudo, criar o inexistente, inventar o dizível, troçar, conflitar, saber esse Brasil de calças curtas em berço esplêndido de antagonismos e prosopopeias do arco-da-velha. Peguei o espírito do Érico? Deve ser isso. Possa ser.
Em férias na minha Estância Boemia de Itararé (que ele cita em passant em seu “Incidente em Antares”), quantas vezes reli até mesmo “Israel em Abril” e “Gato em Campo de Neve”, além do livro “México”, em que ele se mostrava passeador, peregrino, passageiro de estradas exóticas e mundos distantes, para meus sonhos, sabenças e adoração. E também tive a oportunidade de ler clássicos em suas belas transcriações-traduções, via editora Globo, porque sem ele estávamos boiando aqui e ali por falta de conhecimentos de talentos europeus, pelo menos em versões francesas do qual ele fazia recolhes e depurações. E já me mirei: quando sair do Brasil (como sonho uma viajona, uma bolsa de estudos, um sonho impossível) já tenho minha tentativa de mostrar resultantes desse aprendizado-Veríssimo: escrever sobre os locais, as pessoas, dando minha opinião in loco sobre as contentenzas, prazeiranças, e, claro, riscos e medos de terras estranhas. Como aprendi a conhecer bem o Brasil também a partir de Érico, saberei com certeza reler esse mundão em minhas próprias pelejas, pegadas e palavras ao sabor dos ventos e passaportes carimbados. Na minha alma ledora (gosto mais de ledora do que de leitora), foi o Mestre Érico Veríssimo quem carimbou o passaporte do sonho, do guri com amarelão – que amava os Beatles e Roling Stones – a saber a fundo os tópicos frasais bem construídos, as expressões idiomáticas e típicas, numa salutar e saudável mixórdia de macadames em palavreares gostosos, em que eu, sim, como o guri Saramago pelo mão do avô contador de causos, eu, imberbe e moleirão, entocado, fugindo de catar coquinhos, de pentear macacos, de caçar sapos, de pular carniças, de inventariar chuvas de canivetes, cainho e sonhador de uma terra de leite e mel, pela palavra-mão de Érico ia-me felizardo e perene aprender o ofício-tessitura da palavra encantada que me minha imaginação saradinha e pura de tudo carecia bem. Benza-Deus. Bons tempos aqueles. Sim, é preciso reler tudo de Érico Veríssimo, de “Clarissa” a “Musica ao Longe”, de “Solo de Clarineta” a “Olhai Os Lírios no Campo”, que esses foram sim, meus primeiros livros de prosa que adorei ler, e que ainda trago nas paredes da memória o cheiro das páginas ameladas, as marcas das páginas marcadas a suor e unha, as dobraduras para o dia seguinte entre uma polenta de milho branco e um pastel de couve, porque Érico Veríssimo é daqueles que você pega pra ler e ele pega você pela leitura e vai na soma a empatia palavra-olhar. Nunca mais houve um outro Veríssimo como esse, é vero, nem o causeiro Luis Fernando que mais enfeita o pavão de uma piada pronta com citações culturais, ou mesmo citações possantes em outra língua, mas nem chega aos pés do mestre-genitor, apesar de ser muito vendido nesses tempos de muita estética e pouco conteúdo, de muito ouro em pouco pão, em que ler não é tudo, só parecer que vale o quanto não preza. Homenageá-lo com leitura ou releituras, ou mesmo reedições de quilate é pouco perto do que ele merece mesmo. Houve um tempo, na pobreza de minha infância humilde, que Érico Veríssimo caindo-me às mãos como mirra por bondade de vizinhos, era tudo o que eu queria ser, que eu podia ser num crescendo, era tudo com o que eu me contentava entre bois de sabugos e fords de carretéis de linha de coser, como se fosse no prazer de tão gostosa leitura o meu não-lugar, um estado idílico que a sua prosa me conduzia para, pelo menos ali, eu sonhar mundos melhores, campos de trigos sem corvos. Esse foi Érico Veríssimo pra mim. Depois que o relançaram, ele, Érico, cada vez mais Veríssimo, pode ainda em tempo recompor tantas estantes vazias com suas preciosidades, ganhando assim a literatura brasileira para essa juventude transviada, um referencial de qualidade para se recompor, e, talvez, mas só talvez, medir-se entre tantos novos nadas, novos manés-ninguéns, e assim como eu, aprender com Érico Veríssimo a qualidade humana do autor e a qualidade narrativa da criação propriamente dita que é o que vale mesmo um grande romance, uma grande obra que o tempo confirma, consagra e leva como mensagem de grandeza para o futuro. E com licença que vou paginar meu “Incidente em Antares”, Coleção Sagitário, Terceira edição, Editora Globo, 1971 – Meu Deus! – romance brasileiro de 485 páginas para se ler com orgulho de ter um escritor desse porte em terras brasilis. A benção, Mestre Érico Veríssimo! Estamos aqui tomando um mate amargo, nesse Brasil-continente, sandálias de humildade, fósforo aceso na mão, levando sua luz pelo perigoso caminhar adiante, na escuridão de horrores de homens insanos com um neoliberalismo amoral que vai falir a condição humana mais primitiva. Ainda não perdemos a herança magnífica de tua esperança-andaime, prisioneiros de somos entre gente e bichos, nesses caminhos cruzados mais o retrato de tua saga literária por nosotros, os brasileirinhos que, entregues a própria sorte, ainda assim sonham um lugar ao sol.
Silas Corrêa Leite – Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor, Edição 2004 – E-mail: poesilas@terra.com.br – Site pessoal: http://www.portas-lapsos.zip.net

Um Dólar por dia – vergonha coletiva

Este é um crime do qual todos nós somos culpados perpétuos: 1,2 mil milhões de pessoas, vitimas da pobreza extrema, vivem com apenas um dólar por dia

“O Comité Nobel norueguês atribuiu o prémio ao pioneiro do microcrédito Muhammad Yunus e ao Banco Grameen, fundado no Bangladesh, que demonstraram que mesmo os mais pobres dos pobres podem trabalhar para criar o seu próprio desenvolvimento.”

Estudiosos do mundo desenvolvido, que também são vitimas do consumismo exacerbado praticado no ocidente, acreditam que a pobreza está intimamente relacionada com a falta de educação. Estes senhores bem nutridos culpam os pobres pelo descontrole social do planeta, chegam ao extremo absurdo de dizerem que as guerras cessariam, se todos os seres humanos tivessem o que comer e o que vestir. Pensam que a paz global seria conquistada com alguns pedaços de pães e alguns copos de água potável.
No mundo todo, cada pessoa dentro de um grupo de seis sobrevive com um dólar por dia. O que se pode comprar com um dólar? No Brasil, por exemplo, talvez se compre um litro de gasolina, dependendo da variação do câmbio.  Ou quem sabe meio quilo de carne de segunda, ou um litro de leite. Se pararmos para pensar, que gastamos vinte reais em média para tomar um café expresso e uma garrafa de água mineral, em um shopping qualquer de Brasília – nos sentiríamos ricos.

Alimentamos um monstro vorás diariamente com o nosso consumismo. Há um provérbio que diz: “Não usamos dois pares de sapatos ao mesmo tempo”, todavia, gostamos de acumular, saber que em casa há outras dezenas ou centenas de outros pares de sapatos que nos dão uma falsa segurança. Isto ocorre com quase tudo que usamos: camisas, relógios, e até computadores e celulares. Guardamos muitas coisas supérfluas, muitos objetos dos quais certamente nunca faremos uso.

Os governos preferem oferecer ajuda ao invés de oferecer oportunidades, “bolsa pobreza” por aqui tem o famigerado nome de “bolsa família”.  A pobreza é fruto ácido que as políticas públicas produzem inversamente. A corrupção e a má gestão travam o crescimento do país, com isto as empresas cortam gastos e mão de obra, e o resultado está aí, estamos vivendo, sobretudo no Brasil, uma crise que logo se transformará em recessão aguda, com isto os que antes eram pobres, amparados por bolsas e outros benefícios do estado se tornam cada dia mais carentes, miseráveis sem esperança, sem futuro, logo não terão sequer um dólar por dia para alimentar seus filhos.

A pobreza extrema, segundo dados internacionais, é “viver” com menos de um dólar por dia e pobreza moderada com menos de dois dólares (1,60 euros), estimando que 1,2 mil milhões de pessoas se encontram no primeiro caso e 2,7 mil milhões no segundo.

Apenas na África, 314 milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia. Não temos estudos sérios com respeito ao Brasil, porque aqui tudo é maquiado, até as contas do governo, para vender um país que estaria dando certo, que venceu a pobreza e a falta de condições mínimas de sobrevivência e cidadania. Contudo, existe um país que não conhecemos, ou que ignoramos – um Brasil que sustenta a política imoral e corrupta, que ora está sendo exposta ao mundo. Eis a nossa maior vergonha coletiva, e a causa da nossa miséria social: A política paternalista que não dá dignidade ao cidadão, ao ser humano.

Por Evan do Carmo

http://www.evandocarmo.com

Revista Literária

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