CONTOS

Devaneios…

dicas-para-escrever-melhor-mulher-escrevendo
Por Ana Meireles
E sentiu novamente a claridade de mais um dia que levantava. Não porque o Sol houvesse dado o ar de sua graça , mas porque o relógio que havia na cabeceira da cama em seu quarto, tocou o alarme anunciando que já era manhã . Bocejou como de outras vezes fez e encarou a triste facticidade: As páginas do livro que tencionava escrever, queria que fossem todas preenchidas com verdades, mas a vida cada vez mais lhe mostrava que a ficção tinha domínio sobre as construções erigidas com invólucro de realidade . A mentira, a farsa, o engodo, tudo fazia parte de uma maciça engrenagem. Uma engrenagem chamada ficção. E lhe ocorria lembrar da frase “Tudo posso no ego que me fortalece”. Ah, logo se dava conta do teor do conteúdo que pronunciava. A frase mais que batida era um plágio que reconhecia o fundo com uma verdade: Estava obcecada com a ideia de ser uma mulher muito bem descolada escrevendo uma incrível estória de amor. Começou, então, num repente, a devanear…

E como se vivenciasse um sonho, pouco a pouco um vulto de traços tristonhos, chegava sem ao menos se anunciar. Sabia ela que só podia ser o seu estrangeiro, um altivo e anônimo senhor, conhecedor das resistentes fechaduras que vedam o portal das emoções. Sorriu!
Ele já chegava com a sua lábia estudada. E para iniciar conversa, não se atreveu a elogiar com pressa. Sabia quão era difícil dar crédito a papo mal inventado. Lançou astutamente a pergunta: De que tens sede, mulher?
A pergunta de chofre ardera ligeiramente à boca da garganta. Pensou cismada não responder, mas logo disse: Sinto sede de muitas coisas, sobretudo de escrever com palavras de verdade o romance que ainda não vivi. E como vou matar esta sede se ainda não reconheci em carne, em pele e ossos, a figura real do Amor?
Desbrava-te, respondeu-lhe o estrangeiro. Sai de ti e me enxerga com novos olhos. Sabes há quanto tempo procuro por ti a fim de que me escrevas? Sei, sei, continuou o estrangeiro, apesar de tua sede tão grande, e desconfiada das elucubrações acerca do Amor, não me considerastes na imposição vertiginosa do tempo que passa!
Vou te convidar a experimentar, contemplando o propósito teu e meu, a perambular pelo caminho da fantasia. Este é o caminho ideal, se não sabes, para se fazer romance. Não é preciso viver nenhum grande amor de verdade. Acreditas mesmo nisso? Veja, o amor , tal como a fantasia, com as palavras se faz e também se cria, são sonhos que se inventa. Tudo se inventa! Até mesmo a angústia que se transforma em tormenta. Quer experimentar? Comece primeiramente escrevendo uma espécie de carta e saboreie as palavras. Você vai sentir, vai tomar dose de romance em escrita, e um beijo podes até alucinar. Vai lá! Experimenta-me! Sou o teu devaneio!
 
E ao imperativo do apelo, vontade teve de escrever – e sucumbiu. Mesmo sentindo o frio do vazio que vinha… Não congelou nem dissolveu. Mentira! Não se enganava, sentia que esmorecia! Mas, olha, continuava escutando o apelo, vê por dentro como tudo pode suceder: Comece escrevendo várias vezes com o seu sentimentalez burguês. Era pra ele, sabia, que tudo inicialmente escrevia. E todavia, um belo dia, foi aos poucos crescendo uma agonia: Escrevia-não escrevia? Um impasse lhe nutria e consumia. Seria tudo uma ilusão, fantasia? Um sentir de algo que ardia como o fogo de uma paixão? Não sabia e isso lhe afligia! Parecia que escrevia sofregamente para alguém que não conhecia. Não! Realmente não conhecia! Como podia? Ele parecia ser um tipo silente, obtuso, e no meio das palavras, muitas vezes não se reconhecia. Entretanto, não relutava. Escrevia, escrevia,… Entendia que assim era que ficava mais forte, com sintoma de quem se iludia. Se a vontade era uma entrega, por que não se entregar? Entregou-se! Escreveu todos os e-mails e cartas que pode, inclusive bilhetinhos. E ainda assim não se conformou. Não se importou se, do outro lado, o seu fantasma de amor, podia ser um chinês, um inglês ou um japonês. Mesmo que soubesse falar de amor em todas as línguas, não entenderia a fonética daquela alma feminina. Divagava! Eram tantas as palavras saindo aos borbotões. Algumas eram escritas, outras propositadamente caladas. Sentimentos que sentia e recolhia. E o passar do tempo só fazia confundir. Refletia: Precisava fazê-los calar para não incomodar. Escrevia, escrevia,…Escrevia como quem escrevia a um estrangeiro ou a um desconhecido. Escrevia no pergaminho que tocava levemente com as mãos em gestos de carinho. Ele, sim, era concreto! Entretanto, com ele, uma prosa, por instinto, não nasceria. Com seu jeito branco e brando de ser, agasalhava no corpo a tinta do seu desgosto. Era de bom grado que se tornava o seu dessedentador, sem reclamar ou suspirar. Era isso o que lhe fazia sentir, como uma descoberta, a textura do tempo do esquecimento, do tempo que na paisagem desbota e murcha as cores, e de preto e branco tinge as mensagens; Tempo que torna as imagens, coisas frouxas no ar, foscas, quase a apagar. Era quando a saudade se anunciava, a miserável que construía no barco do tempo inexpugnável a dor que lhe era insuportável. Que saudades ainda sentia de sentir os arroubos de um amor de verdade, saudade do que sentiu e não viveu. Ou será que sentir já é viver? Mas, o que era mesmo um amor de verdade? Continuava sonhando com ele como se fosse aquele antigo estrangeiro matreiro, aquele que feriu seu afeto e se enfronhava em silêncio enchendo-lhe de coragem. Por isso, ainda escrevia, no branco, puro e silente pergaminho. Era ele o braseiro que aceitava as cinzas do seu devaneio! E dizia de si para si: Fantasia em prosa e ficção é melhor que acreditar em romance de amor por pura obstinação!
Ana Meireles

ENCONTRO DE SONHOS

Entre paredes frias de um quarto invisível, deitada sob tecidos aquecidos pelo tempo…vem o sono de noites anteriores.
No alto vê surgir as primeiras estrelas no céu ainda claro…

Caminha pelas alamedas com passos imprecisos, a visão turvada em direção as afrontas que se apresentam com frequência.
O corpo sente o peso daquilo que não lhe cabe nas mãos, desfalecendo por entre os dedos ainda que fechados estão. Contudo percebe ao redor a magia da Criação.

Pode ouvir ao longe o canto de pássaros, o som suave de folhas secas que caem ao longo da estrada arborizada…
Em um tímido sorriso denuncia  que, pelo simples ainda sente alegria.

Sente na face enrubescida pelo vento gélido de invernos passados, uma leve brisa que anuncia o findar da tarde, juntamente há mudanças de temperaturas emocionais, nas quais, são protagonizados em constantes delírios…

Ilusão  que rondam à espreita da madrugada, na expectativa em desvendar mistérios de sentimentos involuntários, de uma realidade imaginária, estática pela razão que está no presente.

Sente a opressão de atos volúveis, por emoções inconstantes, além do necessário para remanescer  nessa história do mundo que é surreal.
…pingos de orvalho caem  umidificando sua face, com isso, despertando  ao olhar às estrelas…

Em um longo suspiro sente o alívio em regressar pra vida real!

Gratidão é o que sente…
Pois, agora está no presente.
Ainda que, neste sinta as dores e dissabores daquilo que não se ausentam.
Eleva  clamores aos céus, por tudo bendizes ao Senhor
Já agradecendo pelos bens à receber
Por Seu imensurável amor.

Autoria: Lu Aragão

Naquele dia de outono

832806_ampliada.jpgDeitado numa vala, muito antes de abrir meus exaustos e entristecidos olhos naquela madrugada de outono, eu já pressentia o perigo pairando sobre nossas cabeças. Tenente havia pouco mais de dez meses, um tanto inexperiente, eu comandava um pelotão do Primeiro Exército Canadense, lutando em território belga e holandês, ocupado pelos alemães. Nosso objetivo resumia-se em liberar o Porto de Antuérpia para o fornecimento de suprimentos aos aliados no noroeste europeu. Estávamos no final do mês de outubro de 1944.

A guerra se arrastava por cinco anos e não parecia próxima do fim. Meu sentimento era de que avançávamos num território para retroceder em outro. Uma sucessão de confrontos e batalhas, com vitórias e derrotas, como se tudo fosse um simples jogo de tabuleiro. Infelizmente, não era. Os soldados inimigos que matávamos, e os nossos próprios mortos pelos inimigos, eram reais. Da minha curta experiência em campos de batalha, eu já havia compreendido, da pior forma possível, que não há como descrever o horror da guerra sem antes vivenciá-la.

Apesar de parecer um pesadelo interminável, tudo ao nosso redor era por demais real. Um filme de horror do qual não havia como acordar. No entanto, eu sabia que o final daquela sangrenta e repugnante guerra seria o despertar daquele pesadelo, pelo qual muitos ansiavam.

Não havia outra opção a não ser seguir em frente. Entretanto, para nossos corpos, parecia impossível seguir combatendo. Nossa energia tinha sido sugada pelas sucessivas batalhas, a ponto de não sobrar praticamente nada, sequer para manter-nos de olhos abertos. Além da vontade comum de vencer aquela horrenda guerra, derrotando por completo os nazistas e seus aliados, poucos do nosso grupo tinham motivos mais fortes para seguir adiante.

Não fosse o clima ameno daquele outono, nossa disposição em lutar ficaria ainda pior. Eu tinha lutado no inverno do ano anterior e sabia que o inferno da guerra poderia ser muito pior se a estação fosse outra.

Para meus soldados, o cansaço extremo e a profunda melancolia por perder colegas de batalha, por vezes em seus braços, pareciam apagar quaisquer sentimentos de amor e saudades em relação aos familiares e à vida outrora afortunada. Eu, contudo, não deixava de pensar em meu lho que havia nascido poucos meses após minha vinda para a Europa. Não pude estar presente em seu nascimento, tampouco compartilhar tamanha alegria com minha esposa, mas sentia que se eu morresse ali, naquele exato momento, de certa forma, eu continuaria vivo em meu filho. É um sentimento de imortalidade libertador.

Mas não, eu não podia abraçar aquele sentimento de derrota e morrer ali, naquela vala, longe de quem amava. Prometi a mim mesmo que o próximo Natal eu passaria com minha família, e faria o possível e o impossível para isso. Eu precisava ver meu filho, pegá-lo no colo e vê-lo crescer. Precisava abraçar minha esposa, beijá-la, amá-la. Eu era muito novo e, assim como meu menino, tinha uma vida inteira pela frente. Mais do que tudo, eu tinha que ser forte. Precisava ir além de minhas forças. Eu até poderia ser vencido pelo inimigo durante a batalha que se aproximava, mas nunca aceitaria ser derrotado pela minha própria incapacidade de seguir adiante.

Então, como se estivesse assustado, abri meus olhos.

A aterrorizante e pesada artilharia alemã fez-se ouvir. Rajadas ininterruptas. Ainda mais assustador do que o fogo pesado alemão eram os disparos solitários de seus atiradores de elite, pois sabíamos que cada projétil tinha destino certo. Não eram disparos a esmo, como normalmente eram as rajadas. Entremeados nos disparos, era possível ouvir gritos longínquos de dor e pavor. Impiedosamente, soldados canadenses e britânicos iam ao chão.

O clima naquela madrugada estava agradável, nem quente, nem frio. Não ventava e raras eram as brisas que por ali passavam. No entanto, minha ansiedade fazia meu corpo alternar-se entre sensações de frio e calor. Eu transpirava muito nas mãos, na nuca e nas costas.

Dia após dia, avançávamos em direção à tomada do Porto de Antuérpia. Eram batalhas após batalhas, com incontáveis baixas. Segundo informação do comando, a última etapa para a eliminação do domínio nazista sobre o porto seria a ocupação da ilha holandesa de Walcheren: último reduto defendido pelos obstinados alemães.

Tantos pensamentos em tão poucos segundos. Minha mente voava em divagações… Eu precisava prosseguir, precisava lutar.

Peguei meu fuzil e levantei-me.

Temeroso, ergui minha cabeça pouco acima da vala e vi dezenas de soldados alemães aproximando-se sorrateiramente com seus conhecidos fuzis K98. Sussurrei a aproximação do inimigo aos meus soldados.

– Inimigo!

Pedi silêncio, pois os alemães não sabiam que estávamos ali, logo à frente.

A maior parte do meu pelotão era formada por soldados ainda menos experientes do que eu, com poucas semanas de batalha. Uns poucos debutariam na guerra naquela mesma vala, sob meu comando, em substituição àqueles removidos desse mundo pelo inimigo. Eu sabia que alguns daqueles soldados novatos não retornariam ao Canadá. Não vivos. Talvez nem mesmo eu. O futuro do meu pelotão parecia incerto. Meu futuro, igualmente duvidoso.

 Vamos morrer?, questionei-me em pensamento numa fração de segundo. Não havia tempo para maiores digressões naquele lugar.

Minha visão escureceu. Senti-me como se fosse desmaiar. Um zumbido nos ouvidos e uma vertigem momentânea me atingiram. Instintivamente, dei um soco no meu capacete com a mão esquerda, pois a direita segurava o fuzil. Alguns soldados entreolharam-se assustados, sem entender o que eu acabara de fazer. Voltei a mim.

Não obstante o pesado fogo alemão, tentando conter a tomada da ilha pelos nossos soldados e pelos britânicos, podíamos facilmente ouvir os passos dos alemães se aproximando. Gravetos quebrando, lama e muitas folhas secas sendo pisoteadas nos indicavam essa aproximação.

O perigo era iminente.

Esperando instruções para abrir fogo, meus soldados demonstravam uma ansiedade desumana, sobretudo os novatos que nunca estiveram em combate. Era uma questão de segundos até eu dar a ordem para disparar. Porém, eu percebia que nossas chances eram pequenas, pois além da inexperiência de alguns soldados, nossa desvantagem numérica em relação aos alemães era considerável.

Naquele momento, uma brisa momentânea veio em nossa direção. Junto a ela, incontáveis folhas secas que jaziam ao chão. Muitas delas pairavam suavemente sobre nossas cabeças. Então, tive a sensação de receber um sinal daquelas folhas de outono. Um sentimento de paz caiu sobre mim.

Não sei dizer o quê, ou como, mas, naquele momento crucial da minha vida, algo me impediu de dar a ordem de atacar. Uma enxurrada de pensamentos percorreu minha mente, como que conduzidos por aquelas folhas. Foi uma estranha e incompreensível sensação de torpor frente a tragédia que se avizinhava.

O assustado soldado Benoit questionou-me em voz trêmula:

– Tenente? Estamos esperando sua ordem.

Numa virada do destino, a sorte parecia bater a nossa porta.

Percebi, então, que o som da artilharia alemã começava a ser sobrepujado por um estremecer sonoro. Por um momento, fiquei sem saber o que era e de onde vinha. Mas, em seguida, conforme o som tomava corpo, eu pude compreender que se tratava de bombardeiros aproximando-se da ilha onde estávamos.

Rapidamente, olhei em direção aos soldados alemães e vi que estavam parados, observando o céu para igualmente entenderem o que se passava. O céu daquela madrugada estava intensamente nublado e, assim, não era possível ver os aviões sobrevoando a ilha.

O ronco dos potentes motores dos bombardeiros aumentava, tornando-se ensurdecedor. Meus ouvidos, pouco treinados, não permitiam que eu reconhecesse os aviões. O comando daquela operação, em nenhum momento, tinha informado que teríamos o auxílio da força aérea ou que a ilha seria rota de bombardeiros.

Um soldado sussurrou.

– Estão recuando.

Olhei novamente em direção ao inimigo e, para nossa sorte, vi que estavam batendo em retirada. Certamente, os ouvidos daqueles soldados alemães eram mais treinados que os nossos e, assim, devem ter percebido que se tratava de aviões inimigos. Naquele instante, eles pareciam mais assustados do que nós.

O som reverberante daquela esquadrilha de bombardeiros permaneceu constante por alguns segundos, para então dar lugar a outro ainda mais aterrorizador.

Agora, não precisávamos de ouvidos treinados para perceber que aqueles sons sibilantes, que pareciam rasgar o céu de cima a baixo, eram bombas despejadas pelos nossos bombardeiros.

Meu coração disparou. Minha respiração estava ainda mais ofegante do que durante a aproximação alemã. Uma aviltante sensação de medo tomava meu corpo. Eu me sentia inundado por uma miscelânea de emoções e sensações que se alternavam ao longo dos acontecimentos daquela madrugada. Seja como for, eu era o oficial daquele pelotão e não poderia dar mais demonstrações de incapacidade de comando aos meus soldados. As vidas deles estavam em minhas mãos.

Contive-me.

Não tínhamos como saber se aquelas bombas cairiam próximas ou distantes de nós. Não havia muito a ser feito, nem mesmo lugar seguro para se esconder. De fato, aquela vala pouco nos protegeria.

A artilharia alemã cessou por completo.

O alvo do inimigo voltou-se para o firmamento. Baterias antiaéreas começaram a impregnar o céu com projéteis de elevado calibre. Nublado como estava, os alemães atiravam em todas as direções na esperança de derrubar os aviões e detonar as bombas ainda em queda. O perigo vinha de todos os lados.

Tristes lembranças de uma vida outrora sombria percorriam minha mente. Eu não conseguia dominá-las. A casa onde morava quando meus pais morreram, meu cachorro labrador há muito desaparecido e minha falecida irmã estavam entre essas recordações. Era uma sucessão de imagens que traziam ainda mais desespero.

Aflito, fechei meus olhos, abaixei a cabeça e encostei a frente do meu capacete na vala.

– O que eu faço? – murmurei a mim mesmo.

O barulho que nos cercava era intenso. Ninguém me ouviu. De fato, pouco importava. Não esperava por respostas.

Como dizia um sargento britânico que conheci havia alguns meses, nada é tão ruim que não possa piorar. Se, por um lado, não tínhamos mais os soldados inimigos nos cercando, tínhamos agora bombas e projéteis de grande poder destrutivo nos sitiando.

Não estávamos próximos às baterias antiaéreas e nem éramos seus alvos, mas sabíamos que poderíamos ser atingidos por projéteis em queda. Vi isso acontecer com diversos soldados amigos e inimigos.

Apesar da distância, o inconfundível odor de pólvora queimada do fogo antiaéreo alemão nos alcançou. A densa fumaça criada pelos disparos inimigos, e que caía sobre nós, dificultava ainda mais nossa visão.

As baterias alemãs disparavam pesados projéteis não em rápidas e ininterruptas rajadas como a artilharia. Seus disparos eram mais espaçados, e o estrondo imensamente mais potente. A cada tiro dado pelos alemães o chão estremecia.

Sinalizei para meus soldados abaixarem-se, pois não parecia seguro sair dali. Fora daquela vala, a única coisa que encontraríamos em centenas de metros de campo aberto seria uma provável morte. As poucas árvores que poderiam ocultar-nos do inimigo estavam a dezenas de metros de distância, e eram esparsas umas das outras.

Os soldados seguiram minha ordem e abaixaram-se, mas eu não tive tempo para isso.

Imediatamente, senti um forte deslocamento de ar ao meu redor junto a um retumbante estampido. No mesmo instante, fui jogado no chão e desmaiei.

***

Após algum tempo desacordado, abri meus desnorteados olhos e uma claridade insólita atingiu minhas retinas. Minha visão estava embaçada e lenta, mas percebia vultos perambulando ao meu redor. Não conseguia focar em nada naquele ambiente, tampouco me mexer, mas entendi que não mais estava naquela vala. Imaginei que estivesse deitado numa maca, em algum hospital ou enfermaria. Minha audição parecia prejudicada. Não escutava nada, exceto um constante zumbido. Então, perceberam que eu estava de olhos entreabertos e se aproximaram de mim.

Uma abrupta e intensa fadiga me atingiu. Não consegui manter meus olhos abertos por muito tempo. Apaguei em seguida.

Dias depois, ainda em recuperação e com a audição parcialmente restabelecida, fui informado pelo médico que uma bomba aliada explodira próximo à vala onde estávamos. Pela explosão, fui jogado violentamente contra o chão. Bati meu capacete e sofri uma forte concussão cerebral, além de algumas pequenas escoriações e fraturas nas pernas. Soube também que ficara em coma induzido por dezesseis dias após a explosão.

Durante minha estada naquele hospital, recebi a informação de que no dia 8 de novembro a resistência alemã foi eliminada por completo da Ilha de Walcheren, com a rendição dos soldados nazistas. Apesar das inúmeras baixas, nós tínhamos vencido aquela batalha.

***

Numa fria manhã de sábado, sentado numa velha cadeira de rodas na varanda daquele hospital militar, eu observava as folhas mortas caídas no chão, umas voando sobre as outras, recobrindo boa parte do imenso gramado que ficava na entrada daquele lugar. Cada uma daquelas folhas parecia trazer a lembrança de um soldado morto na guerra.

Faltavam poucos dias para a sonhada viagem de volta ao Canadá, marcada para o dia 23 daquele mês de dezembro. Eu estava ferido, mas inteiro, vivo, e, acima de tudo, muito feliz. Feliz por voltar para casa, conhecer meu filho e passar o Natal com minha família.

Após alguns momentos de reflexão naquela cadeira de rodas, eu recebi a visita inesperada de um dos soldados do meu pelotão. Benoit aproximou-se de mim e disse:

– Tenente!

– Olá, Benoit… Que surpresa!

– Vim aqui agradecê-lo em nome do nosso pelotão.

– Como assim agradecer?

Emocionado, Benoit falou:

– Estamos vivos porque o senhor não deu a ordem para atacar os alemães. Teríamos sido massacrados se tivéssemos atacado. O senhor salvou nossas vidas. Salvou minha vida. Muito obrigado!

Não sabia o que dizer a Benoit.

Perguntei-lhe dos outros soldados do nosso pelotão e ele disse que todos estavam bem. Não tivemos baixas naquela vala. Contudo, muitos dos soldados alemães em retirada pereceram.

Fiquei igualmente emocionado. Batemos continência um ao outro. Cumprimentei-o e ele foi embora. Certamente, aquele havia sido um dos melhores dias da minha vida.

Apesar de não me achar um herói, ou mesmo acreditar que não tinha agido certo naquela manhã, senti-me feliz por, de alguma forma, ter contribuído positivamente para aquela guerra.

Não matamos, nem morremos naquele dia.

Autor: Everton Medeiros

Acesse a obra

https://www.martinsfontespaulista.com.br/dezoito-570266.aspx/p

O CASO DO SENHOR JESUS

Os mal-entendidos que testemunhamos durante a
nossa existência são incidentes que muitas vezes provocam
dissabores. Uma palavra mal-ouvida, colocada ou interpretada
pode gerar verdadeiras tragédias. Que o diga o Senhor Jesus… e
o CHICÃO. CHICÃO?!… Vou-lhes contar essa estória.

Estava eu de visita à simpática cidade de Goiânia,
estacionado próximo à Portaria do prédio onde residia o meu
cunhado “NEM”, que iria me hospedar, quando descobri que não
tinha o número do seu apartamento. Isso não me preocupou,
pois esse meu cunhado é uma pessoa muito espirituosa,
amável, de conversa fácil e agradável, de fácil relacionamento,
enfim, um bom papo, e por isso mesmo muito popular.
Provavelmente pelo mesmo motivo, é pródigo em receber
apelidos e costuma adotá-los sem preconceitos. Até mesmo
com um certo prazer. Tanto é verdade que quando perguntei
pelo número de seu apartamento o Porteiro me afirmou que não
existia nenhum condômino com aquele nome. Lembrei-me que o
seu verdadeiro nome, de batismo, era João. NEM era a alcunha
carinhosa pela qual a família o conhecia. Não havia ali,
igualmente, ninguém assim chamado. Só depois que fiz uma
minuciosa descrição de suas características físicas e falei de
sua cidade de origem é que alguém exclamou surpreso: “mas
esse é o CHICÃO!!!”.

O CHICÃO era conhecido, também, como um homem
extremamente respeitador com as mulheres, barriga branca
orgulhoso e assumido que era. Impensável seria acusá-lo de
assédio sexual… Bem, isso até o “CASO DO SENHOR JESUS”.
Na manhã seguinte à minha chegada, já devidamente
instalado na casa do CHICÃO, fui por ele convidado a dar umas
bordejadas no centro de Goiânia, para visitarmos uns sebos de
disco de vinil, coisa que ambos curtíamos.

Sabedora disso, a sua mulher nos pediu para que
passássemos no açougue que ficava no caminho e fazia entrega
em domicílio e encomendássemos umas carnes para o almoço.
Ao chegarmos no açougue, fiquei na porta de entrada
apreciando o movimento da rua e aguardando o CHICÃO
providenciar o pedido. Encontrava-se lá apenas a dona do
estabelecimento que não percebeu que eu fazia companhia ao
CHICÃO e com a qual ele entabulou um animado e amistoso
papo. A certa altura, com a sua habitual educação, perguntou à
proprietária pelo seu esposo que nunca arredava o pé dali,
tendo-lhe sido dito que o mesmo estava, ocasionalmente,
resolvendo um problema da firma e que não demoraria.

Após essa rápida conversa, e ultimada a encomenda
das carnes, o CHICÃO, ainda no balcão, olhou-me de soslaio e
falou displicentemente: – vamos agora, então, ao centro?

Surpreendentemente, respondeu-lhe a dona do
açougue: – Não senhor Francisco, muito obrigada, mas o Jesus
(este era o nome do seu marido) não deixaria e viraria uma fera
se soubesse desse convite. Se bem que o Jesus ultimamente
vem me tratando muito mal. Imagine o senhor que ele chega em
casa de madrugada, quase diariamente, cheirando a bebida e a
mulher. Eu tenho a impressão que o Jesus está tendo “um
caso!”.

Ficamos perplexos diante do mal-entendido, e ela,
sem perceber o equívoco, continuava a expor a sua vida, a tecer
comentários desairosos sobre o comportamento do Jesus, e a,
perigosamente, ceder à tentação: – até que eu acho o senhor
bem simpático. O Jesus bem que merecia que eu saísse com o
senhor, que é um homem tão bonito e educado. Acho que vou
pensar melhor no assunto…

Aflito por ter desnudado, embora sem intenção, a
vida do casal, desesperado por já ter presenciado a perícia do
“Senhor Jesus” ao destrinchar um quarto de boi em poucos
minutos, exímio manejador de facas que era, como todo bom
açougueiro, e antes que ela mudasse de opinião e aceitasse o
convite que não lhe tinha sido formulado, o CHICÃO tratou de,
mais do que depressa, despedir-se, enfatizando: “eu estava
dirigindo a palavra era ao meu cunhado que está ali na porta a
me esperar para irmos juntos ao centro!!!”

Já na calçada, deparamo-nos com o “Senhor Jesus”
que naquele momento chegava. O CHICÃO o cumprimentou
lívido e eu pensei cá com os meus botões: SÓ POR MUITO
MILAGRE O SENHOR JESUS NÃO VAI PERDER UMA DE SUAS
MELHORES OVELHAS!…

Autor Ivanil Batista Chaves

http://www.ivanildobatistachaves.com

O LIVRO MISTERIOSO

– Uma homenagem aos benzedeiros e milagreiros que fizeram e fazem parte de nossa história –

Dona Rosa Maria acordou num sobressalto. Ouvira o som de palmas batendo em frente ao portão da casa seguido de um: “– Ode de casa! – Seu Sebastião se encontra?”

– Sebastião! Sebastião!

 Rosa Maria cutuca o seu marido:

 – Sebastião, acorde homem, tem gente chamando!

– O quê? O quê? – Resmunga Sebastião meio dormindo-

– No portão, escute! Chamam por você.

– Mas agora? Tão cedo? Ainda está escuro! que horas são?

– São cinco horas! vá, vá logo.

Sebastião se levantou, abriu a janela e viu um casal com uma criança enrolada em um cobertor.

– O que foi? Em que posso ajudá-los, indaga ele curioso, pela janela .

– Seu Bastião-(era assim conhecido pelos moradores da cidade e dos arredores) – minha menina está ardendo em febre. Precisamos de suas orações.

Bastião abriu a porta e convidou o casal a adentrar:

– Sentem-se, sentem-se. Esperem um pouco vou me preparar.

Bastião voltou para o quarto, colocou uma roupa apropriada, subiu numa cadeira e pegou em cima do armário uma caixa, colocou-a em cima da cama, abriu-a e retirou de dentro dela um pacote envolto em uma toalha branca, desenrolou o embrulho e avistou o objeto que o auxiliava na cura das pessoas que o procuravam: era um livro cuja capa não era permitida visualizar, pois se encontrava encoberta por um pedaço de papel pardo.

Retornou à sala e se aproximou do casal agastado pela filha doente e começou o ritual:

Abriu o livro numa determinada página, segurou o livro com a mão esquerda e apoiou a mão direita na testa da criança. Começou a falar em língua desconhecida, a cantar baixinho de olhos fechados e em alguns minutos ficou completamente em silêncio. O ritual durou apenas 10 minutos e a febre abandonou a criança que sorri para ele como a agradecê-lo pela cura.

Estes episódios de pessoas entrando e saindo da casa deles era constante na vida da família, não obstante, Dona Rosa Maria não conjugava da mesma fé do marido, dizia que as pessoas se enganavam , que ele não curava ninguém e que essas pessoas atordoavam a sua vida, turbavam o sossego do lar. Por ela não receberia ninguém.

– São todos néscios! E ainda Bastião não aceita paga, é um trouxa esse homem! Apregoava zangada.

Seu Sebastião era uma espécie de faz tudo na comunidade: sapateiro de profissão, nas horas de folga, costurava cortes na pele das pessoas, fazia injeções, curativos, partos, benzimentos e rezas. Nenhuma pessoa jamais saia de sua residência sem amparo e solução. Aos impossibilitados de irem até a sua residência, era ele que ia até a casa deles com a maior boa vontade, sob os protestos irados de Dona Rosa Maria que não se conformava com o Dom trazido pela fé inabalável do marido.

No seu livro sagrado ninguém mexia, era proibido tocá-lo ou conhecer o seu teor.

Rosa Maria pensava que o livro era amaldiçoado, tinha medo dele, não queria nem chegar perto.

– Ainda queimo isso! Deve ser coisa do demo, onde já se viu alguém que nem doutor é curar e resolver qualquer problema?

Sim, porque Bastião, trazia marido de volta, encontrava gado roubado, dinheiro perdido, saldava dívidas antigas, buscava desaparecidos, grudava ossos quebrados, colocava nervos no lugar, tirava quebranto e mal olhado, enfim tudo o que se poderia carecer.

Mas Rosa Maria não acreditava no poder do livro e ridiculariza-o e propiciava tremendos escarcéus.

Então, neste dia em que a manhã ainda dormia e a luz da lua ainda teimava em ficar mais um pouquinho, levantaram-se para tomar café e começar as lidas de cada um, Bastião saiu pelos fundos para buscar a lenha e os gravetos com o propósito de acender o fogo no fogão de ferro, então percebeu que todas as galinhas tinham desaparecido do galinheiro, cerca de vinte galinhas poedeiras. Chamou então a esposa e imediatamente lançou mão de seu livro sagrado e fez um ritual ali mesmo no galinheiro. Entrou calmamente para dentro de casa e tranquilizou Rosa Maria dizendo:

_ Até a meia noite, todas estarão de volta.

– Duvido muito, respondeu a companheira agourando.

-Espere e verá!

Exatamente a meia noite, ouvem os cacarejos das galinhas.

Estavam todinhas de volta ao galinheiro!

Rosa Maria tremeu de pavor e amaldiçoou o livro: – é coisa do demônio! não pode ser! joga fora este livro homem! um dia ainda te acontece algo de ruim por causa disso!

– Deixa disso mulher, você não tem fé? É a minha fé e devoção não entende?

Mas ela não entendia, nem queria entender – Milagres são com Deus e Senhor Jesus, quem é ele, um simples sapateiro para realizar milagres? Ele não se enxerga! – resmungava exasperada-

E os milagres continuavam. Pessoas chegavam todos os dias pedindo coisas impossíveis de se imaginar, bem como uma senhora que pediu para Bastião casar a sua filha com um fazendeiro bem rico da cidade. Outra que queria uma casa nova e uma terceira que desejava viajar de avião ainda nesta existência. Todas tiveram seus desejos satisfeitos.

Num outro dia, desapareceram os porcos e toda a roupa do varal da casa do casal. Lá se foi Seu Bastião com o livro e antes da meia noite, tudo estava normalizado, como se nunca tivessem sido furtados.

A fúria de Rosa Maria aumentava assim como ela, que de tanta raiva engordava a olhos vistos, comia de pura ansiedade e medo do tal livro. Começou a sonhar que o livro tinha rosto de gente, mãos de lobisomem e ameaçava estrangulá-la.

Decidiu então: ou o livro ou eu. – acabarei com o maldito e com toda essa fantasia de milagres e curas!

Pegou o livro, embora temerosa. Aproveitando que o marido estava atarefado na sapataria dirigiu-se a uma patente dessas antigas – eram também chamadas de casinhas onde na ausência de vaso sanitário as famílias faziam uso deste “banheiro”- muito comum nas moradias do interior-  uma fossa com um assento elevado feito de madeira no qual as pessoas faziam as suas necessidades e depois jogavam cinzas por cima para abafar o odor.

Rosa Maria jogou o livro sem piedade dentro da “patente”. Voltou para dentro de casa realizada com a façanha – Por que demorei tanto para fazer isso? Deveria ter tomado essa atitude bem antes, que alívio!

No outro dia, logo ao acordar, sentiu a falta do marido ao seu lado, na cama. Levantou esperando encontrá-lo na cozinha. Nada.

Procurou no quintal. Nada. Chamou, gritou. Deu-se conta de que as galinhas, os porcos, as roupas do varal, as frutas do pomar e até os cachorros haviam sumido.

– Misericórdia! Só pode ser uma brincadeira do Bastião, só pode ser! – Falava sozinha.

Saiu pelo portão, procurou pela vizinhança, pela cidade toda e nada de encontrar Bastião.

Passaram-se dias, semanas e meses. O marido e todas as coisas desaparecidas não retornaram.

Rosa Maria foi se aconselhar com o pároco da igreja, contou-lhe tudo, não omitiu nenhum detalhe. Estava muito arrependida de ter jogado fora o livro do marido.

O pároco aconselhou-a a se confessar e fazer uma penitência, apesar dele não concordar com as curas de Bastião, o livro poderia tratar-se de algum santo milagroso, não seria oportuno arriscar!

Ela fez tudo que o pároco recomendou, porém não conseguiu encontrar o marido.

Decidiu então que faria um jejum, se o livro continha orações de algum santo poderoso, certamente o santo a perdoaria e traria Bastião de volta para ela.

Iniciou o jejum numa segunda feira, tomaria apenas água até o marido retornar para casa.  Semanas depois seu corpo foi encontrado dentro da  “patente” , sem vida e segurando o livro pelas mãos.

                                                                        Sônia Lorena Aver

 

Revista Literária

%d blogueiros gostam disto: