CRÍTICAS

Sobre o filme baseado no Romance de Gustave Flaubert “ Madame Bovary”

large_ia4dED8oFfNS5spGVwakJPIi9jY
“O texto passeia pelos olhos de quem o vê e sente. Impressões desabrocham nos pergaminhos da consciência nem sempre justa ou condizente com quem escreveu o texto. Isso pouco importa! Os leitores são o mais das vezes, tão e somente simples seres humanos bebendo leitura e afogando-se uma vez ou outra na atividade mental de interpretar.” (Ana Meireles)
E quão difícil é interpretar, chegar ao sentimento do autor, sentir as imagens que povoaram a sua cena mental. O filme baseado no Romance “ Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, traz de beleza e espanto a paisagem sem igual como cenário para vestir o enredo que, por sua especialíssima particularidade, atravessa importantes aspectos da construção da subjetividade humana.
Logo de início remete a figura da personagem, Ema Bovary, antes do casamento com Charles Bovary, na condição de residente de uma instituição religiosa. Segundo a fala de Ema, por escolha própria. Porém, a vida de clausura não nutriu as expectativas que acalentava. Saiu de lá diretamente para os laços de um casamento. Em conversa consigo própria disse a si mesma, externando um desejo: “Tomara seja um bom homem!”
Ora, o que seria um bom homem para Ema?
E Ema casou-se recebendo de presente das mãos do pai um dos presentes que a sua própria mãe ganhara no dia do casamento: Um estojo com talheres cujo valor se presume tenha sido inestimável para sua mãe, não para Ema que recebeu-o com a expressão facial de uma grande decepção.
E volto a pergunta acima em aberto, respondendo: Seria aquele que casasse com as expectativas românticas que guardava e intimamente nutria.
Charles, logo de início e até o fim, se mostrou apagado, sem muito entusiasmo ou desprendimento para embarcar nos desejos de sua mulher. Sua motivação de vida se restringia ao exercício da medicina sem demonstrar grandes ambições. E Ema foi sentindo o peso das horas que não passavam sem ter muito o que fazer. Pensa e ouve sua voz interior dizer-lhe “Eu sou casada”
Busca se confessar com o padre do lugarejo que lhe diz das mulheres que não tem boa alimentação e não são bem aquecidas, bem afortunadas pelo conforto que lhes cerca. Retruca ante as argumentações do padre que lhe situa entre o cumprimento do dever por aquelas sem boa alimentação, pois a vida éra só sofrimento, mas, um sofrimento com uma vida de honra, no dever, sempre o dever…O contrário era a opção pelo inferno no rebelar-se.
E no conflito íntimo que lhe tomava a alma, Ema passa a ser seduzida. Os caçadores estavam alí, talvez fazendo a leitura da fisionomia de uma mulher que queria muito mais que as paredes de um casamento. Era uma sonhadora e pensava que o casamento seria a parte mais feliz da sua vida, mas o casamento só fazia com que verificasse que as horas de vida estavam estagnadas numa vidinha de esperar o marido em casa para jantar sem ter tempo disponível até para um passeio pelo campo como era de seu desejo.
Ema sentia-se condenada à morte em vida.. Uma das falas: “O meu futuro é um corredor escuro com a porta trancada no final…”
E os sedutores estavam a postos com suas “necessidades e igualmente carências”. Juntava-se a fome e a vontade de comer. Pois só os insatisfeitos sentem fomes insaciáveis. Ema era a presa fácil, a que de início tentou se esquivar, mas seus desejos eram mais fortes. Aos poucos foi escolhendo viver o inferno da alma, aprisionando-se ao consumo, a compra de vestidos e mais vestidos, objetos valiosos para enfeitar sua casa , endividando cada vez mais o desafortunado marido.
Ema foi se deixando levar na tentativa de fugir ao destino de condenada. Era mais importante atingir o objetivo de fugir a crueldade da vida vazia e seca de sonhos e realizações. Nisto, a voz de um dos sedutores a quem se entregara em adultério: Um coração sem amor, é um coração sem voz, sem música,…Ema embarcou iludindo-se nas vivências de um doce amor , como assim acreditava!
Mas a curva da realidade tomava as vestes e o corpo da ruína: Ruína material, ruína moral, a decadência de uma alma vivendo as vicissitudes da existência. Foi a sua escolha. A escolha que foi de encontro a aceitação da morte como aspecto da vida, o inferno da alma na vã tentativa de fugir do corredor escuro com a porta trancada no final. Era-lhe humanamente impossível encontrar um grande silêncio nos sons da natureza. Ema se encontrava obcecada por seus desejos! E desejo nem todos conseguem fazer calar. Rumina, rumina, ao ponto de se deixar derramar pelo vãos do corpo que fala…
O Romance de Gustave Flaubert à época de sua publicação foi um escândalo para a sociedade moralista, machista e patriarcal de uma época. O adultério sempre foi e sempre e por muito tempo será um quase crime se praticado pelas mulheres. As mulheres são as putas, os homens os garanhões sedutores afinados na lábia do caçador.
Ema delinquiu diante dos desejos que gritavam em sua alma. E quem iria lhe atirar pedras? A sociedade hipócrita e sempre hipócrita? Ema não se ajoelhou aos pés da honra de uma mulher. Preferiu sucumbir aos desejos que atravessavam e torturavam sua mente querendo ser carne. E não considerou nem por um vislumbre que não há problema algum em se desejar, mas o que se faz com os desejos…pois, somos seres/sujeitos desejantes. Um sujeito sem desejos é corpo morto.
Existimos porque existiu o desejo de outros antes mesmo do nosso nascimento, desejo anterior ao nosso. Antes de nascer para o mundo físico já existíamos no mundo dos desejos de uma sociedade, uma sociedade hipocritamente moralista. Qual a saída para as mulheres como Ema Bovary? O suicídio foi a porta trancada no fim de um corredor escuro.
Por Ana Meireles

MADAME BOVARY DE GUSTAVE FLAUBERT

5679-madame bovary cover
Baixe  a obra

Madame Bovary, livro publicado em 1857, é sem sombra de dúvida a obra mais relevante de Gustave Flaubert. No entanto, para mim, não é como dizem os críticos mais importantes de sua obra, que o livro se consagrou pelo fato de Flaubert ter inventado uma nova forma de narrador, nem tampouco pelas descrições de cenas, algo que já existia nas peças medievais. Contudo, este modelo de escrita revolucionário viria se tornar comum apenas nas novelas atuais.

Madame Bovary, como romance, representa, portanto, no cenário mundial, peça única, no seu estilo e importância, algo sem paralelo também para o Realismo Francês, desta forma Madame Bovary está para o romance como As Flores do Mal, de Bauldelaire está para poesia.

Fala-se muito sobre o livro como uma ode ao adultério, por isso seu autor teria sido quase condenado pela sociedade puritana, representa e defendida pelo governo francês da sua época. Todavia, a meu ver, muitos não perceberam e nem percebem os críticos atuais, que o livro traz muito mais do que uma exposição moralista e decadente da burguesia europeia.

A obra revela a insatisfação existencial do próprio autor, impressa na sua personagem principal de sua tragédia humana, e, sobretudo, fracos lampejos de iluminismo também ineficazes para animar o espírito humano nas trevas do ceticismo intelectual.

A obra é um retrato fiel da decadência humana, contudo, não poderia deixar de revelar também sua estupidez, nos atos inconsequentes de Emma, algo que se repete e que se repetirá eternamente nos atos humanos, enquanto formos homens e mulheres em conflito com a nossa própria realidade, enquanto sonharmos com o mito da felicidade, pois, segundo nos revela a obra, só existe na literatura romântica e na cabeça dos grandes escritores.

Neste meu parecer, que também não é perfeito, compreendo que sua musa-protagonista, Emma Bovary, vive como Dom Quixote, fora da realidade, isto se dá pelo mesmo feitiço da leitura de muitos romances, que a fizeram vazia, sem alma própria, seu espírito se transporta para as páginas dos romances, com um idealismo quixotesco de nos fazer rir da sua pretensa ingenuidade. Contudo, Emma nos faz chorar e lamentar a sua inocência, em seu apoteótico e previsível fim.

Em se tratando de literatura comparativa, logo nos saltam os olhos muitos detalhes da construção psicológica das intenções dos autores, ambos com o mesmo desejo, o de explorar a decadente e provinciana sociedade em que viveram. Me refiro, em termos comparativos, embora publicado uns 21 anos depois, ao Primo Basílio de Eça de Queirós, não na importância para o realismo mundial, pois como dito, Madame Bovary é obra singular neste respeito, por isso deu luz a tantos outros livros mundo a fora.

Se fosse me aprofundar na análise das personagens da obra de Flaubert, sobretudo nas almas masculinas desta magnifica ficção, faria um resumo das personalidades dos homens, aqui denegridas pelo autor. Em síntese, os três homens ligados à sua protagonista, Emma Bovary, diria que são homens fracos, neles se revela a inversão de valores que se encontra em Emma, mesmo sendo ela uma sonhadora e delinquente no atos e na conduta. Os amantes são fracos e covardes, quando não assumem o romance e a tratam com desprezo e indiferença, também por explorar sua aparente fragilidade e carência afetiva. Talvez seja pelo fato de que este romance ideal só exista na mente alucinada de Emma. Já o marido, por sua vez, além de corno convencido, pois suas atitudes deixam nas entre linhas que sabe da conduta da esposa, das suas escapadas, muitas vezes com seu consentimento, é de caráter fraco, homem sem ambição e profissional mediano, pessoa depressiva e de espírito anêmico.

Madame Bovary, como tantos outros clássicos deve ser leitura obrigatória, especialmente para quem estuda e produz literatura. É claro que para pessoas comuns, destas que vivem na correria do mundo real e nas facilidades do mundo virtual, este livro não servirá, nem como entretenimento nem como referência para um aprendizado humano. O fato do adultério ser o tema principal, e de ter causado polêmica sobre a obra e sobre as intenções do autor, o livro vai muito mais além de tudo isso que já foi dito, tanto por muitos que já se debruçaram sobre a obra, como por mim, neste mini parecer daquilo que para mim deve ser levado em conta.

Por Evan do Carmo

Baixe o livro

Madame-Bovary-Gustave-Flaubert

O indigesto paladar do silêncio na construção supra real do afeto

 “Existe é homem humano. Travessia.”

João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas.

O tempo tem o seu quaradouro de lágrimas. Vertido em uma sucessiva e trágica tristeza. Chora-se muito. Por tudo o quanto se pensa sonhar, há um choro escondido.  Incomoda. Tem iluminadura de precipício. É ruidoso. Assusta. Causa embrulho no ser. Atravessa a vida igual morcegos em voos noturnos sobre um solitário trapiche. Tem intimidade de sol entrando em um jardim. Não nutre qualquer generosidade. Quando não se chora, se ressente

do chorar. E o embargar da voz na garganta causa mais estranheza e dor.

Tal qual o tempo, o silêncio se mostra atendo à nossa leitura de vida. Embora seja um ótimo conselheiro, pelas coisas que ficam suspensas, pelo que se  interdita no acrisolar das horas, é dado a responder com mágoas as nossas angústias. O Rei Lear, já farto de idade e acostumado às des_costuras do existir,  por certo muito chorou e teve, tomando as devidas proporções, longos períodos de silêncio. Contudo, em sua trágica velhice, o soberano se viu sozinho. Marcado por uma intransigente solidão que o cortava a alma.

Com um olhar atento e experiente. Que lambia as barras do horizonte, de tão comprido. Em um longo e des_confortante momento olhou, demoradamente, o tempo. Viu o rei que, além dos fossos que o circundava, um assombro de solidão lhe amealhava a alma. Estava velho, o soberano. Mais velho do que podia suportar. Seus dias eram pregados de canseiras e enfado. Nada havia que o contentava. A coroa sobre a sua cabeça tinha o peso de uma noite de intenso temporal. Pesava-lhe os dias. O anel. O manto. O cetro.

No alto do trono bretão, o monarca parecia uma flor murcha, lançada em um monturo qualquer. Sem viço. Sem cheiro. Sem brilho. A sua vida cheirava a morte. Suas feições tinha um empalidecer de defunto à espera do enterro. O reino dava passos largos rumo a um vazio de vida e uma escuridão de existir. Das três herdeiras, duas viviam envoltas a conchavos e conspirações. Sem qualquer apego ao afeto. A terceira, Cordélia, por conhecer de perto as agruras do velho Rei, pouco aspirava a si. Estar com lhe bastava.

A sucessão da coroa era um fardo pesado ao grande e idoso Rei. As duas herdeiras mais velhas sabiam desta indecisão. Auspiciosamente se desdobravam de falso mimo. Era pouco ao sábio monarca. E ele conhecia bem destas intenções. Mas isto o massageava a alma. Era tudo o que queria em seu tempo de solidão. A terceira herdeira nada falou. O indigesto paladar do seu silêncio lhe pareceu amargo. A construção supra real deste afeto se estampou ao soberano em forma de estorvo. A embófia o tomou por morada.

Como seres existenciais, somos seres de escolhas. Mesmo o não escolher é uma atitude de escolha que provoca consequências. Cordélia escolheu não falar. Fez a escolha pelo mutismo. Compreendia sua história e o contexto vivenciado. O afeto atravessava o seu existir em uma afetividade de ser. Feito o voo das araras, riscando o céu pelo entardecer. Foi uma difícil escolha escolher não falar. Estar em condição de mudez. Em abertura as suas compreensões de vida. Em uma construção supra real do afeto no existir-existindo.

Isto a tornava singular e potencialmente perigosa. Tanto aos olhos do grande Rei, pelo estado de emudecimento voluntário, quanto aos olhos das duas outras herdeiras, pela autenticidade no afeto que nutria por seu pai.  Esta era a sua travessia. Seu caminho de encontro. Expressão de afeto. A sua singularização perpassava o seu ser. Pagou o preço do zelo. Do cuidado. Do amor que nutria ao seu pai e Rei. Em um tempo que tudo se configurava interesse, Cordélia teve a ousadia de se assumir demasiadamente  humana.

Tornara-se maior que o rei. Reinventou-se em pessoa melhor. Fez-se pintura em dias de  extremada escuridão. Um ser ontológico, afetivo e factual.  Em estreita relação com o tempo e o silêncio. Em convivência próxima ao afeto. Preservando o vínculo com o Rei. Propondo-se a existir sua existência com um olhar solene de filha ante a representação compassiva e servil do pai. Doando-se à inospitalidade da vida em uma sublimação semântica de existência. Tomando para si a compreensão mundana do existir-existindo.

O Rei se fez homem. Nesta transcendência não se guardou do ser. Sua ubiquidade cessou. Por mais agradável fosse o cuidado de sua terceira filha, o seu mutismo o incomodava. Ao silenciar sua voz, Cordélia se fez chumbo. Aos olhos do monarca a sua alma adquiriu coloração acinzentada. Sua presença se tornou odiosa. Havia pouco sonido em seus atos. Aos poucos, da vida se extraiu a morte. Ao Rei o seu afeto se fez frio, distante e indesejado. Servido indignamente em prato raso no grande banquete real.

A inserção indigesta do silêncio na transferencialidade do ser, fez do Rei uma figuração de morte. Envelhecido. Impiedoso. Vulnerável. Merecedor de compaixão. Estava nu diante de seus súditos. Sem qualquer segredo, virtude ou pudor.  Sem governo sobre si e sobre os seus. Por fim, o manto do tempo o cobriu de ultrajes. Os ribombos do escárnio romperam as muralhas do reino. Confuso e arrependido tomou sobre si os trajes da loucura. Em sua mudez, Cordélia vertia lágrimas. Enfim,  seu afeto vencia o rancor real.

Na temporalidade das coisas e dos seres, era tarde. Muito tarde. A dimensão do afeto de Cordélia, em sua relevância de silêncio, já não comportava vida. A mudez é perigosa. Diz coisas sem dizê-las constrói dúvidas. Consagra a interlocução do não-dito ante o dito. Enfatiza configurações à linguagem que requer cuidado. Transpõe a compreensão rasa do entendimento humano fugaz. Cultiva conteúdos latentes que o dito não pode antever. Reside aí o perigo. Disto sabia Cordélia. E em morte, o Rei teve de aprender.

Em sua terminança de ser, quando sua vontade e poder real já não alcançava qualquer vento, não evidenciava voz de comando a si ou aos outros, o Rei se fez homem em grandeza de homem. Clivado pela morte de Cordélia e, indubitavelmente amargurado, encontrou em sua própria mudez, o seu mais prazeroso e indistinto chão. Reino que o acolheu sem quaisquer resistências. E na dimensão do silêncio amortalhou os seus sonhos de rei, construindo no indigesto paladar do silêncio, sua morada de afeto eternal.

Ao afirmar sua anulação de sujeito, em sua última consumação de ser, o Rei demandou suas figurações de silêncio em uma dimensão de amor à efêmera mudez de Cordélia. E o tempo, sempiterno, imanente e imorredouro, promoveu o seu fechamento de ser. Prescrevendo, extemporânea, a construção do afeto em uma simbolização de amor atemporal. E acolhido por uma silenciosa subjetividade, a interpretação do grito silencioso de Cordélia nos vem em uma investidura ensurdecedora de afetação humana.

Que sejamos reis ou súditos, cavaleiros, escudeiros ou bobos da corte, que tenhamos séquitos ou andemos sós, o gozo da vida requer contemplação e silêncio. A nossa dimensão de ser é notoriamente marcada pela alteridade do ouvir. O esvaziamento de si e do outro, dado pela fala, tem no emudecimento do dito, a experienciação do dizer do não-dito. E que ocupa um lugar de suma importância na revelação expressiva dos afetos. Seja gerando nossas próprias inquietudes ou na encenação prescritiva do olhar.

Com suas nuances reveladoras, o silêncio é repleto de significado. Traz-nos enigmas e discursos ambíguos. A significância do silêncio, em contextos distintos,  tem difícil leitura. Entender o silêncio é para poucos. Em seu leito de morte, Rei Lear se encorajou a entendê-lo. A cada dia somos pautados pelo silêncio. Que ocupa o lugar de frente em nosso existir. Por mais ruidosos sejam os dias, há sempre uma Cordélia a nos anunciar, em mudez de fala, de escrita ou de desenhos, a construção supra-real dos nossos afetos.

Alufa-Licuta Oxoronga

Psicólogo e Escritor

DAS INQUIETUDES DA ALMA

“A loucura não precisa ser um colapso total. Pode ser também uma abertura. É potencialmente libertação e renovação.” (Ronald Laing)

15741310_587099178127088_7913870303173379198_n

ENSAIO SOBRE A LOUCURA – DE EVAN DO CARMO

Quando se aventura a falar sobre literatura, a penetrar no imponderável reino das palavras, é inequívoca a necessidade de se ater, de imediato, ao rico ensinamento de Carlos Drummond de Andrade, quando, em sua Procura da Poesia pondera: “Não faças versos sobre acontecimentos, não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. ”

Tal lição me vem à mente, de forma cristalizada, no exato momento em que me coloco diante do notebook e passo a ler este Ensaio sobre a Loucura, do jornalista, músico, editor, escritor e poeta Evan do Carmo. Por certo (penso eu) o poeta da Cidade do Ferro compreendia que a literatura tem esta força descomunal de se assumir, textualmente, um diário ré invento. Caminho de indiscutível profundidade. Capaz de nos mostrar, em suas inúmeras facetas, as transmutações rítmicas e gestuais do autor.

Portanto, mesmo não tendo a literatura o poder suprassumo de transformar uma realidade, a partir da leitura e da análise textual, ela, no entanto, nos provoca a reflexão e nos convida a entrarmos no fantástico mundo da fantasia, e assim, a partir dos registros fornecidos, temos a capacidade de reavaliarmos nossa própria existência e por meio de nossas construções simbólicas somos conduzidos a outras vivências pelas vozes, sons e imagens que o texto nos traz.

Desta forma, a literatura elucida, denuncia, silencia, conduz, alicia, incita, estimula, desperta, atiça, provoca e encoraja, conflui, incide, discute, inquieta, contesta, entranha e estranha. Lançando-nos a uma insuspeita inquietude de ser. Levando-nos ao mais profundo de nós. Aos nossos refolhos de vida em existência de existir. Com isso, reafirma o que Guimarães Rosa, o escritor dos Grandes Sertões & Veredas nos disse: “Literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano. ”

Remetendo à epígrafe deste ensaio e conduzido, ainda, pela fala do poeta da pequena Itabira, que sensivelmente nos orienta a penetrarmos “surdamente no reino das palavras”, pois, segundo ele “Lá estão os poemas que esperam ser escritos”, me lanço à leitura deste Ensaio sobre a Loucura procurando chegar mais perto das palavras de Evan do Carmo, tentando elucidar as mil faces secretas que a sua literatura contem. E assim, quiçá, descobrir a chave para o enigma posto logo em sua abertura.

Ora, se a literatura é mimese, que imita pela palavra, com bem afirmou Aristóteles, Evan do Carmo, enquanto ser social se insere neste Ensaio sobre a Loucura re_criando um contexto em que situações e sensações se vinculam de forma inequívoca e magistral em um registro de tempo singular. Extraindo significados e significâncias dos menores detalhes. Como se vê pela não nomeação das personagens à importância social as quais se insurgem, mas pelas motivações específicas de suas questões intrínsecas.

Evan do Carmo abre o seu Ensaio sobre a Loucura situando o leitor a um lugar_espaço não determinado “um homem pula do alto de um prédio comercial” cuja cena não enseja maiores elucidações “lá embaixo há um grande alvoroço, pessoas correndo para verificar se o homem morto ainda respira”. Pelas poucas descrições, tampouco permite a nós, leitores, deduzirmos a qual cidade o autor se refere, contudo, por pistas deixadas pelo autor concluímos ser uma metrópole “rua larga no centro de uma grande cidade, palco de muitas tragédias como esta“, com o vai-e-vem contínuo de pessoas, carros passando velozmente pelas avenidas, semáforos abrindo e fechando, e, do inesperado, alguns transeuntes são surpreendidos pelo desfecho fatal ocasionado pela morte do jovem anônimo, que, “pelo estado em que se encontram as suas roupas, sujas e esfarrapadas, dá para imaginar que se trata de algum moribundo andarilho, pessoa sem lar, sem amor nem pátria.”

Ao pular do alto do edifício comercial, o suicida produz uma comoção social e nos faz compreender, enquanto leitores, que a vida produz os seus próprios trabalhos de partos, em dores e contrações contínuas, sendo o homem mero e ocasional elemento de um silenciar de vozes que nos invade o ser, nos afligindo a alma pela profusão do existir, ou do não-existir-existindo. Nos advindo de uma analogia investigativa e representativa de ser. Em que a vida, em uma enunciação de agônica existência, se põe em incisiva loucura.

É assim que Evan do Carmo nos apresenta a sua obra. Um universo prenhe de acontecimentos. Propõe o escritor que, dentre tantos que se avultam a observar o corpo de um suicida anônimo, estirado sem vida ao chão, seja o cão, o único a se alimentar de afeto e renovada preocupação pela estranheza que a morte nos causa “Este cão preferiu uivar, depois silenciosamente se comportou como um ser humano em profunda contrição, mas não podemos negar que a sua melhor e mais atraente proeza seria o riso. ”

Atemporalmente, Evan do Carmo nos coloca de encontro a certas estranhezas, a elementos que se desenvolve em meio às nossas questões mais íntimas de ser. Que, no entanto, nos retoma a consciência de sermos ser-no-mundo em essencial distinção de afetação de vida. Seja do cão, seja do suicida ou da família que é atropelada e morta por um comportamento desviante de um jovem irresponsável. Arquétipo sublime de uma inquestionável negação humana de ser.

Entretanto, como insta a contemporaneidade líquida, a vida deve “seguir seu curso, e os mortos seu incurso. ” Embora haja loucos que “dizem que morrer é bom, ao passo que outros, talvez mais loucos, digam que a vida tem algum objetivo. ” Contudo, como afirma o autor deste Ensaio sobre a Loucura “a dor alheia é, sobremodo, o prelúdio de nossas próprias dores, sinais naturais de que também trilhamos o mesmo caminho, logo esta memória coletiva, de que a dor é o fim ou a ausência do prazer nos assusta, e, a aparente preocupação altruísta com nosso próximo nos permite esquecer ou mesmo dividir a nossa dívida, a culpa de uma consciência agonizante. ” Com isso, “quem discordar deste argumento é louco também, apenas por discordar. ”

Sabe-se que em todas as sociedades há loucos. Há pessoas que se distanciaram de suas inteirezas de ser. Que perdem o controle de suas emoções, causando estranheza a outrem. Assim, a cada elipse histórica este fenômeno é tratado de modo distinto, em uma horizontalidade cultural, política e social diferente. A cada grupo uma postura uma linguagem, um convívio, um cuidado, um acolhimento ou distanciamento singular. O que desperta descobertas ou provoca aprisionamento.

Neste livro, Evan do Carmo nos aponta inúmeras percepções acerca da loucura e do coexistir humano. Seja pela representação do arrependimento, ódio, vazio ou angústia. Seja pela experimentação do abandono, da dor e da morte. Pois, como afirma o autor, “a soma de todas estas carências” nos conduz, indubitavelmente “a um abismo de insignificância e inutilidade social. ” Entretanto, reafirma o autor que “não devemos esquecer que é na loucura que reside a sinceridade da alma. ”

Nestes ricos meandros é que Evan do Carmo nos apresenta o seu Ensaio sobre a Loucura, argumentando e refutando o próprio existir humano. Expondo a pratos fundos a perversão e a insanidade, que, desejável ou indesejavelmente nos acerca o viver. Emergindo dos nossos pântanos psíquicos em vicissitudes ou atrocidades. Submetendo-nos a uma leitura cuidadosa, pois tal qual “Kafka, o criador do absurdo e de histórias inacabadas”, Evan do Carmo discorre que “abismos serão abertos sobre as vistas e mentes dos leitores, ficará a critério, decidir se os explorarão ou não. ”

Portanto, já que “com louco não se discute, a menos é claro, se formos mais louco do que ele” e não me considerando tanto, embora muitos apontem para isso, me deito sobre este Ensaio sobre a Loucura com o afã de Dom Quixote diante dos imemoráveis moinhos de vento. Embora saiba que “Conviver com as diferenças é algo infinitamente complicado, mesmo se todos fossem literalmente loucos, como já constatamos, de maneira um tanto poética neste ensaio, as espécies de sanidades seriam distintas. ”

Com isso, ainda que seja o homem um ser livre, cuja vontade pode moldar o mundo e ditar o ritmo e o rumo de sua própria história, como afirma Sartre, diante dos eventos trágicos enunciados por Evan do Carmo, neste Ensaio sobre a Loucura, somos fadados a crer que sendo “a vida difícil as pessoas são totalmente vulneráveis ao crivo das suas próprias necessidades de autoconhecimento”, assim “chamamos de loucura as reviravoltas que alguns resolvem dar em suas vidas, mas o que há de verdadeiro no ser humano é um desejo insano de se conhecer, de testar seus limites.”

Desta forma, Evan do Carmo nos coloca diante de vários extremos a que pode chegar o homem quando tudo parece ruir sob os seus pés. Seja como fez a prostituta, após a morte de seu amante cozinheiro, buscando amor, afeto e carinho nos braços do delegado, cujo efetivo policial foi responsável por um ato de estupro a que a própria prostituta foi vítima, ato este que desencadeou todo o enredo do livro. Seja como fez o jovem atropelador, que ao jogar o carro contra a família indefesa, matando a todos no mesmo instante, por consequente, veio ele também a óbito. O que desencadeou todo um leque de acontecimentos no meio de sua família, refletindo indiretamente a outros fatos da trama do livro. Como fez a mãe do jovem atropelador, que ao sentir no peito o furor do vazio ao ver o seu filho sem vida se isolou profunda e distante a qualquer evento de vida, passando a não-existir socialmente, convivendo em um enlace perpétuo com a loucura. Ou como fez a jovem médica, que após o sumiço do seu mestre e amante resolveu oficializar o matrimônio com o seu noivo, sócio do pai do jovem atropelador, cujo delegado, hipoteticamente seria o responsável pelo inquérito instaurado.

Extremos que se ligam e se desfazem naturalmente, como fez o pai do jovem atropelador, após presenciar a morte de seu filho ressignificar sua vida a propósitos beneficentes, à caridade humana, se desligando a todos os outros compromissos sociais. Ou o médico, que ao ser sequestrado vivenciou as durezas do cárcere, passando por situações humilhantes e degradantes e ao ser liberto reatou o seu matrimônio, cujo afeto pela esposa parecia ter cessado. Ou mesmo o próprio suicida, que após ser agredido e sua amada prostituta ser estuprada pelos policiais resolveu dá cabo de sua existência de vida. A todos fica uma lição: É necessário seguir em frente.

É assim que Evan do Carmo nos apresenta este seu Ensaio sobre a Loucura, um emaranhado de fios em um flagrante desequilíbrio de vida. Colocando cada personagem como protagonista de uma busca constante por uma emulação de existir. Pois “há sempre um pouco de razão e beleza na loucura, e, em se tratando de literatura todo excesso para atingir picos de beleza no texto, sendo coerente e relevante ao contexto, qualquer extravagância será válida. ”

Em se falando de Evan do Carmo, a sua extravagância literária é propositalmente colocada diante dos nossos olhos, como oferenda, oferta, sacrifício sobre um altar. E já que “Ninguém é totalmente sozinho nesta vida, não se vem ao mundo por meio de chocadeira”, tomo em minhas mãos este Ensaio sobre a Loucura e percebo a cada desenrolar de cena, a cada fluir de palavra, no transbordar da minha vasilha/vida, o que Pessoa enumerou por “esta velha angústia, esta angústia que há séculos trago em mim. ”

Ler este Ensaio sobre a Loucura nos faz lembrar de Soren A. Kierkegaard, o qual disse que “arriscar-se é perder o equilíbrio por uns tempos… Mas não se arriscar é perder-se a si mesmo para sempre. ” Assim, arriscando a ir ao encontro com o inusitado, Evan do Carmo costura seu enredo singularmente, traçando paralelos entre as personagens e seus conflitos psíquicos, nos levando para dentro de seu entrecho ficcional, perpassando aos nossos olhos cada desfecho como se verdade fosse, nos revelando assim, seu universo de escritor de primeira grandeza.

Neste Ensaio sobre a Loucura, que nos traz um enredo ricamente costurado (se intencional não sabemos) pelas vestes da psicologia, um detalhe salta aos olhos. A não nomeação das personagens pelo autor. Artifício este observado também por José Saramago, em seu Ensaio Sobre a Cegueira, em que o autor utiliza este estratagema para conduzir sua história por meio de metáforas e aforismo assistemático, dando assim peso, sentido e significância a própria palavra.

Igualmente, Evan do Carmo apresenta em sua estrutura narrativa um ser-no-mundo em um completo atolamento ontológico, nos permitindo uma identificação atemporal com cada personagem. E assim, na condição de leitores, apreendermos destas personagens suas perplexidades de mundo e de ser. Mesmo sem percebê-las em suas características físicas e aparências fisionômicas. O que não se configura qualquer barreira para apreciarmos esta obra magistral. Aguçando-nos ainda mais o nosso desejo pela leitura.

Este Ensaio sobre a Loucura nos suscita algumas observações bem peculiares, o que pode servir como chave para a descoberta do enigma proposto pelo autor, ou hipótese para novas conjecturas literárias: Se a ação dos policiais contra a prostituta a separou do suicida, e este, se lamentando pelo bem deixado (prostituta) não conseguiu seguir em frente em sua existência de vida, vindo a dar cabo dela, houvesse o jovem resignificado interiormente a dor da falta, quais seriam os fenômenos propostos no enredo pelo autor?

A mãe do jovem atropelador não suportou a morte do filho, olhou para trás, sentiu a dor furar o seu peito e se isolou socialmente em um autoexílio, buscando na loucura sua cura para a dor. Tivesse ela se colocado no lugar dos parentes da família atropelada produziria tal efeito em sua vida?

A prostituta e a jovem médica ressignificaram os fenômenos ocorridos e seguiram em frente, a prostituta colocando a procura pela mãe do suicida como forma de alento e o amor pelo delegado como recompensa, a jovem médica pautando o casório como estruturação para um futuro promissor. Não tivesse ocorrido o estupro, o suicídio e o sequestro que representações sociais teria dado o autor a cada personagem?

Diante disto, a leitura deste Ensaio sobre a Loucura nos acerca de algumas causas peremptórias que causaria efeitos imponderáveis ao enredo: Quem seriam os sequestradores e quais as motivações? Pela demonstração fria e distante da jovem medica, seria ela autora intelectual do crime? Teria a mulher do médico se cansado das traições e arquitetado o sequestro, como forma de punição? Teria a mãe do jovem atropelador restaurado sua sanidade por meio da pintura?

A jovem médica teria voltado a se encontrar com o médico (embora este tenha reatado o compromisso matrimonial)? A prostituta, em seus enlaces amorosos com o delegado, teria descoberto que o caso do suicida dito pelo delegado seria o seu amante cozinheiro, que ficou louco devido a ação de policiais? Seria estes policias subordinados ao delegado amante da prostituta? A prostituta teria casado com o delegado? Teria o narrador se auto inserido ao enredo na personagem do jornalista investigativo?

Com estas ilações em mente, conclui-se que este Ensaio sobre a Loucura mostrou (e bem) a que veio. Suscitou em nós, seus leitores, linguagens ontologicamente distintas e tão acessíveis umas às outras, provocando inquietude em nossas almas. Abrindo caminhos para novos entendimentos e questionamentos acerca do inefável existir humano.

OXORONGA, Alufa-Licuta

Psicólogo e poeta.

O Pesadelo do Romance “Tribunal” de Álvaro Alves de Faria

 E o que é o homem na natureza? Um nada

em relação ao infinito, um tudo em relação

ao nada,  um ponto a meio entre o nada   e

o tudo… ” – Blaise Pascal

 ……………………………………………………………………………………………………………………..

“Ele tinha uma bala na cabeça//E com ela certamente convivia//Nada que além de si em si começa//Tudo que transforma em rímel de Poesia//Ele nunca esquecerá aquele dia//E tem na cabeça o projétil bala//Talvez ela tenha a sua serventia//Mesmo quando numa poética fala//E ainda hoje Álvaro carrega//A bala em si e nessa fatal agulha//Que é a cabeça – e nunca mais nega//O fazer poético do qual se orgulha//E assim a bala vai a ele levando//Em alvo, em culatra, em banzo e mira//Pois sabe desse butim surreal quando//Faz do Poetar um incrível arco de Lira!//”(…) Poesia Da Bala na Cabeça, Para Álvaro Alves de Faria, in, Porta Lapsos, Poemas, pg, 81, Editora All-Print, SP, Ano 2005, Silas Corrêa Leite

 

Conheci o literato de renome nas quebradas da resistência, Álvaro Alves de Faria, desde as apreendências no meio algo zenboêmico do subway sobrevivencial (entre as sombras perversas e as escuridões tenebrosas) de uma então desvairada pauliceia nos escombros funestos do monturo da chamada canalha de 64 (o medo do comunismo criando monstros); a corrupção institucionalizada nos terríveis podres poderes já bancando a tal “revolução” de primeiro de abril de 64, e, muitos anos depois, quando, aqui e ali lancei alguns dos meus livros de eterno escritor “emergente”,  mesmo tachado de “neomaldito da web” pelo Site Capitu e em seguida pelo próprio Antonio Abujamra (Provocações/ TV Cultura de SP), quando ele, o escritor e jornalista Álvaro Alves de Faria teve a generosidade de me entrevistar por mais de uma vez na Rádio Jovem Pan de SP, a respeito de meus poemas e desvairados inutensílios afins.

Também tive o prazer de revê-lo quando do lançamento de obras pela Letra Selvagem Editora na Casa das Rosas na Avenida Paulista em SP. Lá estava Álvaro Alves de Faria sempre sereno e cândido me contando de novos livros, de outros sonhos, de trabalhos lançados em Portugal, onde é também muito valorado. Nessas idas e vindas, sabendo-o de trabalhos anteriores, fiquei vivenciando a expectativa de conhecer sobre o seu comentado romance O TRIBUNAL, que estava fora de catálogo desde as primeiras edições nos Anos 70 (época notória de trevas no Brasil de uma ditadura militar  incompetente, corrupta, violenta e senil), porque sempre liguei o nome a obra, e ambos à postura ético-cidadã do artista criador enquanto ser humano e cidadão. Ele era daquele tempo (dizia a lenda dos noiteadeiros e notívagos de esquerda) em que fazia poemas contestatários, reproduzia em estêncil ou xerox, e depois lá em cima de arranha-céus  da capital paulista entrevada soltava as granadas de versos de resistência, na sua trincheira de esperança por uma democracia ainda que tardia, e teria sido preso por isso, daí talvez, a bala na cabeça, a lenda, o mito, e por isso que muito antes de sabê-lo pessoalmente produtivo e de alto nível criacional,  soube a respeito dele nas quebradas de Sampa, e escrevi o poema que o homenageia até mesmo por isso também. Afinal, temos orgulho de plantadores de sonhos no historial do Brasil.

Assim, honrado pela oportunidade, tomei-me de presto a ler nesse clima o romance O TRIBUNAL, LetraSelvagem Editora, 2015, 88 páginas; desse tamanho e enorme documento. E fui fundo, quero dizer, fui rasante, e quando me vi, estava dedilhando as profundezas da obra. Desvelador de Sombras, diz João Antonio (ùltima capa do livro).  “… texto diferente, estranhíssimo (…) Perplexidade e fuga (…) sem desfalecimento” diz Lygia Fagundes Telles também no mesmo espaço. Entrei de cara lavada na obra (alma?) do escritor, que foi, sem trocadilho com o nome do mesmo, “alvando” minha mente, memórias, labirintos, bastidores… Ora direis, “almai”-vos uns aos outros, como eu também vos “almei”. Ora direis, ouvir estalos, rupturas, frisas, flancos… Desvelador de sombras, pesadelos, escuridões humanas, feito um tribunal de loucos julgando sãos – feridos venceremos? – grades na alma saltando impropérios, azedumes, dezelos, ah a própria cela de existir… E quando a epiderme é a cela? Depois ter de sobreviver… depois regurgitar, e eis a obra, o homem, os sobrevivente de antes, de um tempo chamado terror…

As paredes dos relatos? Feitas com tantos olhos. A tormenta abatendo sobre nós, e, pior, muito pior, termos que manter os olhos bem abertos, e contar, a alma trincada e contar, as mãos vazando delírios, resmas, flancos, guirlandas de lágrimas, feito um monólogo de vários tempos, de várias aberturas, de tantas feituras e feitios, feito novela-romance, contação de sangria desatada.  Tribunal? Há um clima pesado. Há um pesadelo no ar, no livro, na escrita, e os gatos podres que estão nele querem comer os seus olhos, para que você não veja; e os seus olhos verão o quê? Os arames se rompendo da estrutura do seu corpo (cabeça, tronco, membros)  todo? E as suas mãos, que não param de escrever, como uma rapsódia em fuga, um distrato como fobia, com um medo-rabo, como qualquer coisa que paire sobre uma realidade substituta que ainda assim queima e dói e reina, e você a traz e tem… como uma narrativa-documento, purgação, chorume, sob as coxias de bastidores que ainda sangram…

Qual é a pena máxima mesmo? Sobreviver apesar de? Apesar de tudo? Algemas e lances de escadas para cima e para baixo. O interrogatório ainda está no ar das páginas, meio Kafka, meio Borges, meio Nietzsche, ou até mesmo uma nova versão latino-tropical de um quase monólogo insurgente de uma nova visão do filme O Homem de Kiev? Tocando os pés e as mãos, mastigando consciências, remorsos-víveres  (como fibras num tear de irrigação memorial), e a contação, a narrativa que entra e sai do delírio para uma dura realidade substituta… “De morrer pela pátria/E viver sem razão”(…) diria o hino da época, de Geraldo Vandré, em “Para Não Dizer Que Não Falei de Flores…”. O sol a  nascer… (vendo (?) o sol nascer quadrado… ah, depois o sol-livro, é só uma questão de tempo… O fósforo acendendo cenas, querendo ver o cisco pegar fogo, e dar-se na revelação do circo armado de um tempo, um lugar, também meio Brecht, meio Neruda, meio Lorca, mas, ainda assim a assaz sina de um tempo que hoje, só hoje, detona uma anistia que perdoou mas não devolveu, mas, agora, dessa forma literária pelo menos pode dizer o nome, a metáfora, que pode ser ausência, morte, impunidade, ou ainda como em Kafka também, um Processo, um Tribunal, entre urubus e máscaras. Há os que não sobrevieram. E deixaram cartas-testamentos: “Quando secar o rio da minha infância/Secará toda dor. Quando os regatos límpidos de meu ser secarem/Minh’alma perderá sua força. Buscarei, então, pastagens distantes – lá onde o ódio não tem teto para repousar. Ali erguerei uma tenda junto aos bosques. Todas as tardes me deitarei na relva e nos dias silenciosos/Farei minha oração. Meu eterno canto de amor: expressão pura da minha mais profunda angústia. Nos dias primaveris, colherei flores para meu jardim da saudade. Assim, externarei a lembrança de um passado sombrio”. (Frei Tito de Alencar.)

A LetraSelvagem reedita bem oportunamente esse livro clássico, histórico, e é como se tentasse também com essa escavação de retrazer retalhos de sentir de um tempo macabro, e assim também trouxesse um importante documento literário à luz da democracia, da liberdade, quando o Brasil afinal está sendo (e precisa) ser passado a limpo, e talvez todos nós de uma forma ou de outra estejamos compondo uma bancada, um tribunal de júri, um julgamento, e precisamos de testemunhos-livros, de provas historiais; que precisamos sim, conhecer, entre os camburões, como novos navios negreiros (EMICIDA), e assim passar aqueles tenebrosos tempos a limpo, a própria mancha que foi essa ditadura, entre outras, como o da mídia agora, quando precisamos do sonho de uma justiça igual para todos, em que não sejamos meros marionetes dopados a assistir julgamentos-circos, antecipadas sentenças publicas, sumárias sentenças parciais, tribunais do crime, e que registrem, como o livro de Álvaro Alves de Faria a pontilhar hipocrisias, desmanches, pinceladas de horror e dor, de vazios e preenchimentos ins-pirados, entre meandros hostis, tendo de um lado parte de uma sociedade pústula, facção de uma história como remorso, talvez até de uma literatura datada que à  época pode não ter sido devidamente valorada porque colocava dedos sangrando e mãos armadas de palavras em feridas vivas de impunidades por atacado, tantas mentiras customizadas dessa mesma hedionda ditadura que só posou de inocente no crime organizado do poder, não puniu ninguém. E uma resolução da ONU diz que o povo deve se voltar armado contra ditadores, não que esses mesmos abutres ditadores se autoanistiem… O Tribunal, o romance,  é uma ferida aberta que grita, regurgita, mais do que um vagido, um testemunho feito, aqui e ali, um monólogo capitular, um soco no estômago, um baita jab literário de quase noventa pgs, peso grave, um grito pasmo, uma vereda de dizer que, sim, sobrevivemos. E a arte vem dar seu testemunho nessa obra, desse nível, o que nos leva a Bertold Brecht, num de seus melhores (terríveis) poemas dando testemunho daquilo que era a escória humana de sua época: “Aos que vierem depois de nós” //Realmente, vivemos muito sombrios!// A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas// denota insensibilidade. Aquele que ri// ainda não recebeu a terrível notícia//que está para chegar. (…)// Que tempos são estes, em que// é quase um delito// falar de coisas inocentes.// Pois implica silenciar tantos horrores!(…)// Também gostaria de ser um sábio.// Os livros antigos nos falam da sabedoria(…)//Vivemos tempos sombrios(…).//No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.// A palavra traiu-me ante o verdugo(…)// Vós, que surgireis da maré// em que perecemos,// lembrai-vos também,// quando falardes das nossas fraquezas,// lembrai-vos dos tempos sombrios// de que pudestes escapar(…).//Quando havia só injustiça e nenhuma indignação(…)//Vós, porém, quando chegar o momento// em que o homem seja bom para o homem,// lembrai-vos de nós// com indulgência. (Bertolt Brecht)

O romance(?) O Tribunal, de Álvaro de Faria, foi escrito no curtume da pelanca da Ditadura. Hoje, para nós que vivemos e sobrevivemos depois daquilo, ao ler o livro nos sentimos como parte do Processo como um todo, da luta como sal nas aragens, da sobrevivência possível entre o desalinho da ordem unida, entre o sangue dos que ficaram (e se perderam pelo caminho), mas a ata do TRIBUNAL está escrita de seu modo latente, selada, registrada, em amor, esperança, loucura, dor, e, mais, muito mais, o testemunho de que podemos ser melhor do que a dor que nos deram… E contaremos aos nossos filhos, e aos filhos de nossos filhos, e diremos da pátria-mãe que foi madrasta em atos repugnantes, de São Paulo que foi estado-máfia e que bancou a trincheira dessa ilegalidade amoral pelo qual pagamos preço social até hoje, por causa da rica América Cloaca ora em decadência; e da nossa impunidade “abençoada pelo Deus e engodo por natureza”; dos que falaram em família e destruíram a família Brasil… Mas ainda restam atos, artes, gestos, livros, homens-livros, como Álvaro Alves de Faria, que conta ao seu jeito peculiar (prosa poética entre lampejos de aturdições e enlevos); em sua narrativa de sobrevivência e luz, o tribunal do tempo – o tempo, o melhor juiz (Salomão) – porque livros são almas se lavando, superações de ramos e eitos se reconstruindo, pedaços de nós, de nódoas, de panos de restos como papiros cheios de sangue, suor e lágrimas, a contarem que muito pouco pode ter mudado, mas existem os artistas, os livros vencendo os canhões, os balcões (“Brasil/Qual é o teu negócio?/Os nomes dos teus sócios” (Cazuza, Brasil). E balas em brilhantes cabeças pensantes ainda dando o que falar… o que escrever… o que arguir… o que condenar…  o que delatar. “O TRIBUNAL é a opção de Álvaro em relação à própria literatura” (Durval Monteiro).

“Perdoem a cara amarrada(…)//Perdoem por tantos perigos(…)//Perdoem a falta de folhas(…)//Os dias eram assim//E quando passarem a limpo//E quando cortarem os laços//E quando soltarem os cintos//Façam a festa por mim//Quando lavarem a mágoa//Quando lavarem a alma//Quando lavarem a água//Lavem os olhos por mim//Quando brotarem as flores//Quando crescerem as matas//Quando colherem os frutos//Digam o gosto pra mim”  (Aos Nossos Filhos/Ivan Lins).

Leiam os percalços do pesadelo que é o romance O TRBUNAL, alma lav(r)ada; leiam o estertor além do lumiar do sonho, as narrativas esturricadas de lampejos cortantes, entre estados diferenciados de tempos verbais entrincheirando memorias revisitadas, com navalhas textuais seladas no mesmo parágrafo que se estende como um quarador de vísceras; ou como granitos de gelo ácido, alguns meteoritos poéticos, cargas de desmanches e desencalhes; desencargo de consciência, relato-testemunho, feito assim até mesmo uma espécie de livro-autópsia,  O TRIBUNAL.  E que dessa maneira condoída em alto nível literário procurem saber sobre a dor do afeto que se encerra em nosso peito brasilíndio, tupi-davídico, afroluso; dos filhos deste solo…

-0-

Silas Corrêa Leite – E-mail: poesilas@terracom.br – Autor do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé, Romance, Editora Clube de Autores – Blog: www.portas-lapsos.zip.net

 

Revista Literária

%d blogueiros gostam disto: