ENTREVISTAS

ENTREVISTA COM O POETA WITIMA SANTOS

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Witima Santos

Quem é Witima Santos?

Eu costumo dizer que dentro de mim existe muitas versões de mim mesmo… Versões cujo a vida tem me apresentado ao longo dos anos, versões que eu desconheço e me surpreendo quando somos ” apresentados”. Witima Santos é uma eterna criança! A pureza está no coração da criança, a dúvida, a sede por respostas, o senso de igualdade, de não se sentir superior a ninguém… São coisas que eu sempre quero manter vivas dentro de mim… E também procuro ponderar e conciliar responsabilidades e obrigações com coisas que quebrem essa rotina, vivendo uma vida descompromissada e ao mesmo tempo consciente.

Quais foram as suas primeiras influencias para poesia?

Sempre me senti abduzido pela ideia de transcrever o que eu pensava, o que eu sentia em forma de poemas, foi algo que eu sempre tive vontade de fazer, mas que eu não tinha ideia de como isso seria possível…

E quando criança via meu irmão escrevendo alguns versos e eu gostava de ler as coisas que ele escrevia e a partir daí fui criando meus próprios versos.

 Em que momento você sentiu a necessidade de fazer poesia?

Houve um período da minha adolescência onde eu não me sentia bem com os amigos que eu tinha, que eram pouquíssimos por sinal e eu me sentia excluído. Me sentia deslocado no meio da multidão! Então, eu fui aprendendo a gostar do silêncio, da ” solidão”… E comecei a gostar de conviver com os meus pensamentos, minhas revoltas… Eu sentia que eu precisava expressar o que eu sentia, o que eu pensava de alguma forma… Então, comecei a escrever minhas ideias, comecei a colocar para fora a ótica pela qual eu observava o mundo e era afetado por ele.

Que tipo leitura é imprescindível para um poeta?

A meu ver, julgo imprescindível leituras que nos fazem olhar para dentro de nós mesmos, leituras que coloque em xeque o que acreditamos e nos façam acreditar com mais firmeza sobre o porquê de acreditarmos em algo. Citarei apenas dois entre centenas de outros mais…

Para mim “Zaratustra” de Nietzsche, e, “O profeta” de Gibran… Pode dar uma ótica menos superficial para quem escreve ou, pretende aprimorar as próprias ideias.

 Em que hora do dia você gosta de escreve?

Quando estou com tempo vago, sempre que surge a ideia, procuro passar para o papel…

Mas, quando a rotina está um pouco corrida, geralmente escrevo durante à noite e início da madrugada. Depende muito da forma como as ideias são ” debulhadas” na minha concepção.

Qual é a temática da sua poesia?

Não tenho uma temática específica…  Creio que escrevo de acordo como as coisas me aflige.

Mas, sempre procuro colocar o amor, a simplicidade, e sinceridade nos meus versos.

A meu ver a poesia é a alma nua, a verdade explícita…

As pessoas a interpretam como ilusão, mas, nela se encontra as mais diversas verdades sobre quem às escreve, sobre o mundo e sobre o indizível.

Como acontece seu processo criativo?

Há pensamentos que por si só buscam um sentido, uma forma para ser transcrito, manifestados… E há pensamentos que são consequências da minha forma de ver o mundo, e absorver as coisas em minha volta…  Então, a ideia se forma em minha mente, embrutecida… E eu tento expressá-la de uma forma que façam com que as pessoas fiquem em xeque, que cause espanto, que as faça refletir sobre o que eu quero expressar no meu subentendido. Porque a poesia não é de quem escreve, a poesia é de quem lê.

Um poeta especial para você?

Assisti o documentário de Manoel de Barros ” Só dez por cento é mentira” e lá ele fala que encontrou a poesia onde ninguém via, nos escombros, no que o homem julga como insignificante e de certa forma eu me vi entre os escombros, anônimo…

Até que uma amiga, Vanessa Cristina, me fez uma pergunta ” Você já pensou em escrever um livro”?  ela foi a primeira pessoa que gostou do que eu escrevia, e sempre me falava que eu tinha potencial pra escrever um livro…

E foi através dela que conheci o Evan do Carmo, ela já havia me falado dele, só que até então não o conhecia, ela me marcou num dos projetos “dez poetas” e a parti daí acabei conhecendo o Evan… O Evan assim como Manoel de Barros me encontrou em meio aos ” escombros” (onde ninguém me viu), e viu que o que eu escrevia fazia um pouco de sentido… (Risos)

O Evan é uma pessoa que eu admiro não só por conhecê-lo como escritor, editor…  Mas, por conhecê-lo como pessoa, como amigo, como irmão.

Eu poderia ter escolhido qualquer um dos grandes nomes da literatura brasileira que tem o seu nome escrito na lápide da ” eternidade”, cujo, eu conheço apenas a arte e procurar um motivo para ser especial para mim…  Mas, prefiro falar sobre o que eu realmente ” conheço”.

Como concilia religião e poesia?

O conhecimento religioso é uma ponte que me leva ao outro lado de mim mesmo…

Me traz respostas que a ciência por mais avançada que esteja não consegue responder…

Me traz respostas sobre assuntos que são imprescindíveis na existência do ser humano.

E esse conhecimento tem feito de mim uma pessoa melhor, tem me lapidado ao longo desses poucos anos de existência.

Eu convenço a mim mesmo sobre o que eu acredito, e o porquê de acreditar de tal forma.

Esse conhecimento fez de mim um aprendiz e um instrutor… O que eu aprendo eu repasso para outras pessoas…  Eu ajudo outras pessoas a encontrar as respostas que eles tanto procuram, e verem com os próprios olhos (terem certeza por elas mesmo), de que a resposta baseada na bíblia pode ser satisfatória.

E eu uso isso na minha escrita, o que eu acredito, a forma como eu acredito…

Por isso eu gosto de escrever de uma forma que induz o leitor a pensar, a reflexão…  Porque somente através da reflexão é que se chega a uma ideia plausível.

A humanidade continua presa a dogmas de milhares de anos atrás e nunca procurou questionar isso, ideias absurdas são passadas de pai pra filho por séculos e poucas pessoas procuraram encontrar uma resposta satisfatória…

As respostas existem, e é através de estudos e pesquisas que às encontramos.

Um livro inesquecível?

Um livro inesquecível para mim é ” Asas partidas” de Khalil Gibran… É um romance vivido pelo autor, que não pode ir em frente por diferenças sociais e religiosas.

E esse livro se tornou inesquecível para mim pela sinceridade que eu pude sentir na narrativa, a entrega, todo mundo quer viver uma história de amor que seja como nos livros… Só que nem toda história de amor pode ser vivida, por inúmeros porquês, mas, podemos sentir o amor e levá-los pela vida inteira!

Quem você gostaria de ter sido, se não fosse quem é?

Eu não consigo me imaginar sendo outra pessoa… Cada um de nós carrega suas próprias dores, o que eu sou hoje é consequência de muitas coisas que eu vi, que eu passei…  Se eu fosse outra pessoa talvez eu teria passado por situações que eu não saberia lidar, situações que teriam feito de mim uma pessoa melhor ou pior do que eu sou agora. Para mim…. Descobrir quem eu sou é mais importante do que me imaginar sendo um alguém que eu poderia ter sido, um alguém imaginário.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

Minha maior preocupação ao escrever é questionar o leitor!

Induzi-lo a pensar, questionar, fazê-lo acreditar em si mesmo, acreditar no amor, viver o agora de uma maneira que ele não se arrependa num improvável amanhã, de maneira consciente e responsável!

Fale-nos um pouco dos seus livros.

Tenho dois livros, um é uma participação em uma antologia que publicou mais cem poetas no período de um ano (dez poetas e eu), e o outro é meu livro solo “grito e silêncio”, ambos publicados pela Editora do Carmo.

Ambos têm um valor sentimental muito grande para mim… O primeiro por ter sido o ponta pé inicial de tudo, meus primeiros versos publicados, o ” barro” que fez com que a ideia de escrever um livro se concretizasse.

O segundo foi um pouco inacreditável pelo fato de que eu não sabia que tinha um material pronto para um livro solo, então, quando vi o resultado dos poemas que eu já havia escrito nem acreditei que formaram um livro com mais de 150 páginas…

Páginas que escorrem uma metamorfose de emoções singulares que eu jamais pensei que tornaria público um dia.

Como você classifica a poesia atual brasileira?

A poesia a meu ver é algo que nasce pela rebeldia…

Rebeldia num bom sentido!

No sentido de que nasce independentemente de público, nasce pela necessidade de expressão, pela necessidade de não ser consumido pelo que nos aflige.

Mas, isso não é o suficiente!

É preciso sair do anonimato, tornar conhecido a nossa arte…

Isso, a meu ver, ainda é o principal empecilho da poesia atual, embora vivemos na era virtual, com um alcance inimaginável…

A sociedade não dá valor a poesia que contraria o superficial, que vai além do erotismo atual.

E no nosso país tem muitas pessoas com grande potencial, um público jovem muito grande se expressando nas redes sociais, com ideias magníficas…

Em breve veremos grandes nomes sendo descobertos e suas ideias sendo publicadas.

Fale dos projetos para novos livros

Tenho um projeto futuro… ” Rios de silêncio”, é um projeto da Editora do Carmo do concurso de poesia ” Cruz e Sousa” onde fiquei em terceiro lugar.

Serão poemas de um período de um ano, o material já está quase pronto, ainda estou fazendo algumas revisões e edições.

E também, tenho alimentado a ideia de escrever um conto, ou, um romance…

Ainda não tenho uma ideia definitiva de como ou quando será… tenho apenas um vislumbre dessa possibilidade.

SONETO A UM AMOR IMPROVÁVEL

Perdoe minha descrença no improvável,
O agora escorre pelas minhas mãos vagamente…
Tornando-se um passado imponderável,
deixando-me um vazio inconsequente.

Improvável, nada mais que improvável…
Foi o momento em que à tive em meu presente,
no calor de uma paixão formidável,
que é apenas uma lembrança em minha mente.

Ou, seria apenas um sonho,
anomalias de desvario e realidade,
Que habitas nos tristes versos que componho

Testando a veracidade de minha incredulidade,
No amor que eu pressuponho,
Que alcaçaria a eternidade!

 

Witima Santos

 

 

ÚLTIMA CARTA

 

Se um dia o acaso sussurrar meu nome ao seu ouvido,
e você se der conta que já não sabe mais nada sobre mim…
Se você sentir a sensação de que eu me tornei apenas uma vaga lembrança…
E isso lhe trouxer algum remorso, a ponto de você procura meu número na agenda do seu telefone,
ou, quem sabe, me procurar em alguma rede social,
e não encontrar meus vestígios…
Não se desespere!
Tampouco, tente me encontrar novamente.
Tudo que eu queria era orbitar meu mundo junto ao seu,
mas, nossos mundos eram tão distintos…
E essa aproximação poderia lhe trazer algumas lágrimas…
Tristes lágrimas que eu não suportaria vê-las escorrendo de teus lindos olhos castanhos.
Você fez de mim um homem melhor, embora você nunca irá saber quão profundamente você me transformou.
Sei que deve estar tudo tão confuso agora, mas, com o tempo tudo vai voltar a ser como era…
Fico supra feliz em saber que tudo deu certo em tua vida, eu sempre soube que você alcançaria o inatingível e nunca deixei que você se esquecesse disso.
Você é uma garota incrível!
Sempre me faltará palavras para descrever teus vestígios…
Você é uma incógnita de valor imensurável que me fracionou para que eu coubesse em seu cálculo,
e o resultado foi muito além do que eu poderia dizer nessa carta.
Guarde apenas as boas lembranças, nossas risadas, nossas conversas estranhas…
A minha melhor versão só você pode conhecer…
E é essa versão que eu quero que você guarde em seu coração.
Continue guardando esse segredo, pois, onde eu estiver também existirá uma parte de você.
Adeus!

– Witima Santos –

 

 

ENTREVISTA COM O POETA ALUFA-LICUTA OXORONGA

Quem é  ALUFA-LICUTA OXORONGA?

Três grandes paixões humanas movem o meu ser: psicologia, literatura e arte. Quanto a quem sou, meus textos poéticos respondem. Ali me escondo e me revelo desde a tenra idade. No entanto:

“Todos temos uma história

De caçadas ou de caçador,

Alguns, contam sua glória

Com bravura e com valor,

Não medem as travessuras

E narram as suas aventuras

Em incomparável destemor.”

Assim, externarei um pouco de mim. Nasci no descambar da década de 60, em um pequeno vilarejo do Tocantins, chamado Dois Irmãos (à época, esquecido por Deus e pelos desalmados homens), atualmente, uma próspera cidadezinha do interior.

“Eu nasci em Dois Irmãos

Na Rua chamada Cristais

Tive os cuidados das mãos

De meus carinhosos pais

Hoje eu guardo da infância

A saudade em pregnância

de ruas, terreiros e quintais.”

Minha mãe foi mulher parideira, paria sem pestanejar. Chegando aos cinquenta me pariu, e só parou de pari por vergonha, se achava velha para embuchar. Talvez por isto meu nascimento foi para cedo morrer, para não longe chegar, para ser rama rasteira, carvão de pouco risco, vida de pouco voo, pernas de pouco correr. Talvez por isto vi o mundo e percebi que não me bastava. Não cabia em meu peito. Talvez por isto adoeci logo no sétimo dia de nascido. Mas insurgi com a morte e a venci, por isto cresci depressa e mais depressa envelheci. Um pouco de cada vez, rápido fui perdendo a tintura da vida. Por isto não tenho feições de admiro.

“O maior perigo da vida

é se ter uma útero de pedra

na hora do rebento nascer;

é se ter um peito fechado

à própria existência de ser;

é se construir de nuvem

na hora do sol aparecer.

O maior perigo da vida

não é morrer antes de ser,

o maior perigo da vida

é só o silêncio saber.” [1]

Nunca tive quebranto, devido a feição pouco provida, mas não me faltou arca caída e noites de muito rezar. Se a investidura do meu nascer não foi feito para longe chegar, escapei por um triz.

“A minha mãe parideira

cansada de tanto parir

quis uma pedra em seu útero

para nunca mais se partir.

E meu pai, um tanto enfático,

pôs-se a recusar.

E deu à ela, (em sonho fálico)

um nova pedra pra cuidar.”

(…)

E foi assim que nasci:

não como nascem

os filhos de hora primeira.

Eu nasci

como nascem

os filhos de mãe parideira.

Fui lançado pra vida

como folha trepadeira,

fui jogado pra baixo

como rama rasteira,

fui deixado de lado

como vento passageiro.

E assim fui nascido:

não como nascem

os filhos de vida inteira.

Eu nasci

como nascem

os filhos de mãe-poedeira:

trazido para a vida

como um risco de carvão,

tangido para a terra

como um ressequido grão

e às vezes, desmerecido

do acalanto de uma mão.” [2]

Quando começou a escrever e por que?

 Nasci velho de eternidades. A guilhotina do tempo varou meu pensamento ainda meninote. Fez-me descer aos abismos mais profundos do meu ser. Impondo a cada instante de vida um alumbre de existir. Aos oito já pintava tudo que via pela frente com carvão tirado do velho fogão à lenha, que era alimentado por fogo abanado pelas mãos de mamãe. Quando não tinha papel pintava figuras no terreiro de casa. Aos doze tive o contato com os pigmentos do urucum, do jatobá, do açafrão e tantos outros, e já queria colorir meu mundo de novas cores. Aos quatorze escrevia igual gente grande. Comia livros para impressionar meu pai. Severo demais nesse assunto. E tão doce no trato diário, no manejo do olhar. No traquejo com as palavras. Não foi fácil ser caçula de uma numerosa prole. Tive que escrever. Forçadamente. De tanto ler ‘tomei o gosto pela escrita’ e nunca mais parei. Aos dezesseis para dezessete edite e publiquei meu primeiro livro “Ratos, Vermes & Homens”, todo em soneto de cunho existencial, augustiano, xerocopiado clandestinamente em um órgão público e editado de forma artesanal. Vi que ‘a coisa fluía’ e, como dizem por cá ‘dei sequência ao enterro’.

Existe um tema específico na tua poética?

Não exatamente. O homem, enquanto ser-no-mundo, talvez seja o grande tema de minha criação poética. Alguns temas, como angústia, vazio, solidão e loucura, que expressam em tintas rubras a existencialidade humana, são recorrentes na grande maioria dos meus textos poéticos.

Qual é a fonte da tua criatividade?

Meus escritos e desenhos expressam dores. Pois a vida dói. Angustia-me o peito avassaladoramente. Seja talvez esta a fonte de minha criatividade: a angústia humana. Com o seu viés existencial estampando a existencialidade do ser-no-mundo, tanto em seu existir quanto ao não-existir-existindo. Talvez por isto vivo rabiscando pedaços de papéis por onde vou. Olhando o dentro das coisas (animadas e inanimadas) e de seu não-ser-de-coisas. Talvez esteja minha criatividade na Alma das Coisas.  Nas coisas se desvela o meu-ser-não-sendo, com as minhas dores, desejos e sonhos.

 Qual é a tua relação com a poesia contemporânea?

 O nosso existir se faz existindo, ou mesmo, não existindo o existir que se insiste em existir. Contudo, sem exceção, somos sovados a pés na presença do outro e assim modelamos nosso mundo (particular e existencial) de símbolos e abstratas narrativas. Repousando no bem e no mal um encomendo encanto. Especificamente o meu corpo foi construído a pau-a-pique. Meu ser foi sustentado a sonhos, fantasias e encantamentos. Desde os primórdios do meu tempo-de-existir-existindo me vi nestas identificações, e desde então, delas tenho feito minha in_sustentável habitação. Por isto no meu tecido de ser há tantas mobilizações de desejos e linguagem. Clamor das mordeduras do existir, que me lançam, fio-a-fio, em um mergulho de sonhos e fome, sangue e suor, misturados ao meu barro/existir, sovado aos pés do mundo, em (h)eras imemoriais. Portanto, a minha relação com a poesia contemporânea é simbiótica. Sou parido de uma partenogênese existência. Em uma cisão de mundo com suas nuances e impressões. Sustentado na identificação das in_certezas humanas. Por isto o meu barco/vida está sempre partindo a improváveis e distantes cais. Pondo-me a remetidas constantes. De sumidouro a sumidouro, nas vísceras do tempo/instante do meu feitio de gente que o tempo/ser insiste em tecer em um in_findável não-existir-existindo. O que me permite aproximação e distanciamento, entranhamento e estranhamento com a poética contemporânea.

Existe bons poetas no Brasil?

 Sim. Bons e admiráveis poetas. Em sua grande maioria vivendo em um ostracismo imposto por um mercado editorial implacavelmente elitista. Felizmente tem surgido no  Brasil editoras comprometidas com o fazer poético em detrimento ao nome e status do autor. Cito, por exemplo, a Editora do Carmo, que vem despontando no mercado editorial sem medo de ousar, permitindo a autores (ditos independentes) a visibilidade necessária e merecida.

Em tua profissão secular, como psicólogo, como tratarias o caos dos homens sem a poesia?

 Vim da Bacia das almas. Da boca da noite escura. Próximo de onde o gato perdeu as botas. Um tiquinho antes de onde o vento faz a curva. Nunca tive qualquer presteza, tampouco presto a alguma cousa. Por isto me fiz poeta, por pura desnecessariedade humana. E para compreender o emaranhar do outro me fiz psicólogo. Sabendo que o viver nestes tempos líquidos, em que a incerteza, insegurança, vazios e temores assalta o ser, trazendo desconforto aos corações, teria imensa dificuldade em buscar compreender tais situações procurando respostas no óbvio, no natural, no que se posta cristalizado às minhas percepções de ser-no-mundo. Diante disto a poética e a arte se torna um aporte essencial para cuidar (não tratar) e compreender o outro em seu caos de existir em um mundo tão inóspito, tanto ao outro, em-si-mesmado (em sua in_concretude de vida), quanto a mim, em relação empática ao outro (trazendo às mãos um suposto saber). Portanto, a poética ajuda, mas não é um fim (nada-o-é-neste-mundo-hostil).  Pois a práxis psicológica se pauta na fala (linguagem), no dito (ato de dizer) e no não-dito (silêncio). Essa prática permite darmos conta dos dramas, conflitos, medos, frustrações, inseguranças, ansiedades e temores causados, em sua imensa maioria, pela somatização das coisas vindas fora-do-ser, introjetadas para o lado de dentro pela dificuldade de se externar a fala. Portanto, somos pautados à dor e ao sofrimento, entretanto, como catarse, temos a arte e a poesia, que ajudam o psicólogo a dar conta do imponderável que insta em todo e qualquer ser. O que as torna imprescindível para que o homem entenda o seu caos existencial e se coloque em relação empática com o psicólogo no espaço do setting terapêutico.

Tens alta sensibilidade, já percebi isto em teus textos e poemas, logo deves perceber, por meio de uma análise simples, se é ou não possível manter a lucidez neste mundo atual, o que dirias?

Quando menino amava armar alçapões e arapucas, ainda que ao pegar os pássaros logo os soltava. Ao redor dos alçapões colocava os visgos de jaqueiras e mangabeiras, ao lado armava arapucas, feitas de pequenos gravetos, frágeis e insólitos, mas que prendiam as aves. Bem próximo das arapucas eu ficava escondido com uma linha bem fina e longa, em que a ponta ficava presa à minha mão, à espera do bote. Gostava de ficar olhando a imprevisibilidade da queda, do voo contido, do olhar de susto e do ruflar das asas ao soltá-los. Por ser um péssimo passarinheiro (soltava todos os pássaros que caiam nas minhas armadilhas) escolhi o afeto. Por mais difíceis sejam seus caminhos e tortuosos seus meandros, o afeto me fez o homem que sou. Do péssimo passarinheiro restou o olhar vazio pelo voo. Talvez por pura inveja dos pássaros e suas asas que (im)ponderam o tempo e as coisas pelo se lançar ao vazio de si e do tempo. Como se o tempo fosse mãos acolhedoras. Como se a queda não fosse exercício a novos passos/voos. Desta forma, vivenciei (e vivencio) cada emoção em um abecedário de afetos. Interpretando cada texto na intertextualidade do coração. Desnudando suas roupagens em elaborados pensamentos, embalando suas vivências de vida em um discernimento de esperança. Somente assim mantenho minha lucidez neste mundo líquido, frio e impessoal. Seja talvez a loucura a busca por um afeto. Pois o que se abandona por fora nos inteira e integra por dentro, nossos cômodos (alma e coração) são quartos revisitados, ardência de galho seco espinhoso surcando a carne a epiderme do existir. Esta é a minha lucidez possível nessa contemporaneidade líquida.

Cite alguns autores, não os preferidos, mas que tenha alguma relevância em nosso contexto.

A vida é uma arte representativa da representação artística do existir-existindo. Não pede descanso. É vicissitude, querência, vivência e solicitude. Sente o existir na existência do existir. É simbiose de si, fala por si, sua representação simbólica é o ser olhando o ser que se olha e se esconde por dentro do ser. Quando isto acontece, o ser-no-mundo se afigura em outras nuances, em outras investigações até que se permite o acesso, o olhar e a escuta. O admirar e o vivenciar de um e do outro em uma consubstanciação de mundo e de ser. Desta forma, alguns autores tem lugar cativo em nosso contexto atual, dentre tantos, cito:

Anta Diop (pelo restabelecimento do berço civilizatório) Merleau-Ponty (pelo conceito de corporeidade e percepção ontológica), Frantz Fanon (divisor de águas, tanto na África quanto na diáspora africana), Edouard Glissant (pela presença consentida no Diverso), Aimé Césare (pelo restabelecimento da negritude em nosso ser),  Chinua Achebe (pelo resgate da oralidade africana), Mia Couto (o queridinho dos poetas contemporâneos) e tantos outros.

 Fale um pouco dos seus livros. Quantos são, e como surgiu em tua mente a ideia de escrevê-los?

 Sou autor de 62 livros de poesia, 05 de ensaio artístico e 16 e-cordel. Sócio Fundador das Ong: Leo & Teo  e Ca?ú – Sociedade Cultural e idealizador do Zine “Uma Coisinha Qualquer”, que circulou por 04 anos na cidade do Recife. Uma das particularidade que posso apontar, em relação a ideia de escrever cada um de meus livros, é a escolha  do título, que sempre precede a escrita. Alguns livros, como o ‘Ratos, Vermes & Homens’ são singulares, pois vieram primeiro, ainda na minha mocidade, outros, como ‘Cântaros de Cinzas Mortas – De trevas, de luz, de escuridão”, por terem vindo em períodos de intensa descostura existencial, no entanto, o meu convívio com todos os meus livros, sem exceção, se situa no plano do respeito mútuo. Eles (não sei se todos, mas alguns certamente que sim) me conhecem por dentro e por fora, sabem de minhas costuras de dentro, dos meus alinhaves de ser, do meu tecido/existencial de puro algodão, entretanto, há aqueles que me afetam, nem tanto ao estranhamento (se fosse a isto saberia conviver, pois eu mesmo me fiz e -e me faço- estranho a mim em diversos momentos), mas ao silêncio que me rasga quando os tenho em mãos.

“A minha ideia de vida

é a minha ideia de vida

que não sabe ser vida.

Ela vem fechada por dentro

feito náusea, feito fome,

feito mar e labirinto.

Mas trago uma outra ideia

que é uma ideia de vida,

que vem por fora, indelével,

feito fogo e feito céu.

Esta é a minha ideia de vida

que ainda se quer vida.” [3]

 

Assim, vivendo esta condição de ser, creio também que:

“A essência do homem

é menos de homem

e mais de lobisomem.” [4]

Sendo poeta e Artista Plástico andei por vários lugares e conheci diversas culturas, o que me trouxe algo significativo na minha condição de ser o ser que se apercebe do ser que é e do ser que ainda não é e que se lança a ser, todavia, buscando sempre os sonhos que comportam homens livres onde, por vezes, a força é a palavra final. Já que:

“A viagem do vento

é de pouca temporada.

Há uma algibeira de voz

que suspira ao vento

por uma ínfima existência.

Mas o vento não ouve

o clamor desta voz

circunstancialmente aflita

e necessariamente indesejada.

O seu corpo de brisa

não acomoda os gritos.” [5]

Com isso, no grande hiato da tessitura de minha vida, formada às vezes por fio duradouro e noutras, por indeléveis sonhos, casei, tive filhos mas nunca abandonei a arte, aliás, apesar dos obstáculos e de uma ou outra decepção (natural em nossa vida) construí o meu mundo particular e dele venho me alimentando nestas quatro décadas, e nesta subjetividade de vida, sinto que:

“A minha alma oscila

entre a raiva e o

medo.

Meu corpo é visitado

dia e noite

pela exata essência

de secretas lembranças.

E toda a minha vida

é vivida ao extremo

de cada desejo humano:

a minha alma não tem hora feliz!” [6]

Portanto, a possibilidade de conhecer pessoas, trocar conhecimentos e poder interagir desta demasiada condição humana é algo que engrandece e traz um novo olhar acerca da própria existência, pois:

“As dores de uma manhã

que se dobra aos selos

de um dia de sol

é como um rio que nasce

entre os cânticos das pedras

e o choro das águas.

O encanto que floresce

traz consigo um silêncio

que permeia o chão

de incógnita exaltação.

As dores de uma manhã

que se dobra aos selos

de um dia de sol

é como um rio que nasce

entre os cânticos das pedras

e o choro das águas.

O encanto que floresce

traz consigo um silêncio

que permeia o chão

de incógnita exaltação.” [7]

Por isto, nos caminhos e descaminhos de minha existência sempre me ative a autores existenciais, pois a escrita destes autores sempre nos remete ao ubuntu africano, raiz do existencialismo e, ainda hoje, tão pouco mencionado. Por isto sei que:

“De onde venho

a paz é relíquia.

O pastoreio da vida

é feito à rifles

e afiados punhais.

De onde venho

não há tempo pra sorte:

Tudo se constitui

de labaredas e cinzas.”[8]

Você escreve diariamente? 

Vivemos em uma época (e mundo) onde se banaliza a existência. A mensagem propagada não é totalmente aberta. Os sentimentos são velados, os sinais e referências deletados, e assim, o conteúdo se perde, se deteriora, se esvai. O encontro com o outro exaspera e se finda na superficialidade das relações. Quando não, o controle (ou a tentativa deste controle pelo medo da perda) não promove mudança. Não avança em nossa condição de existir. Por isto o meu fazer poético é diário e constante. Não cessa. E centrado neste estado angustiante de ser, onde o se lançar pela busca, no tempo Devir, muitas vezes não se encaixa, não se completa num breve e rápido olhar, lanço para dentro de mim esta necessidade de escrever. No ato da escrita me aproximo do que há mais interno em mim. Do que traz significados e produz significâncias em meu existir. Não como fuga, e sim como procura. Na minha escrita me revelo me desvelando das angústias do meu ser. Só assim me volto para as coisas, tanto as que alcanço quanto as que me escapam. E são estas coisas que me fazem escrever, sem cessar um único dia. Única orfandade que conheço é o ato de não escrever.

Como concilia a literatura com o trabalho secular?

Tudo se mistura em mim: Noite, mar, vastidão, mistério, encanto, vivências, grafia, mobílias, voz, mãos, cama, concha, choro, livros, anoitecer, alvorecer, frutas, escarpas, desalinhos, abraços e beijos. Tudo se condensa e transborda em encanto. Deserto, afeto, entrelaces, silêncio, vozerio, cravos, rosas, bromélias, pássaros, voos e um destino espargindo um longo e belo caminho, nos levando a um acolhimento de in(quieta)ções de vida e alicerces de amor. A par disto, deste efervescer de existência dentro de mim, tenho que seguir o meu viver, o meu existir-existindo. Cuidado da família, sendo um pai presente, um companheiro atencioso e cumprir meu ofício como psicólogo. Para conciliar tanto afazeres, entre 4h a 5:30h a horizontalidade da vida me oferece o conforto do sono. Portanto, a noite é o meu espaço de criação. Momento em que me situo enquanto poeta. Organizo meus pensamentos. Elaboro novos projetos. Digito os garranchos que foram passados durante o dia em folhas de papéis.  E assim sigo o meu existir criativo.

Na sua opinião é possível dissociar as vivências pessoais do processo criativo? Ou o autor está sempre revelando o seu mundo interior nas suas obras?

 A minha escrita tem a minha voz. A minha in_conclusa existência. Silenciosamente o meu grito salta aos meus olhos e se externa. O tom da minha vida vai além do verde das folhas e do colorido das flores. Tem a cor do chão pisado pelos caboclos ribeirinhos amazônicos. Dos aboios e entoadas dos matutos nordestinos. Na floração dos cactos na seca caatinga a engolir os bois. Das rezas, das cantigas e dos alumbres dos sertanejos tocantinenses. Em sonidos de fortes berrantes ouvidos nos distantes currais. Assim, é possível que alguns escritores/poetas façam esta prece dicotômica, dissociando vida e obra. Eu não. Sou osso na beira da estrada, branqueado pelo sol. Pedaço de couro seco, estorricado pela sequidão dos tempos. Tenho fome por vida. Sou o retirante de Joao Cabral de Melo Neto. Trago n’alma um cântico carpideiro. O solo rachado avermelha os meus pés, brota calosidade nas mãos. Sou tapera abandonada. Soletração de galo. Moirão com seus caburés. Não consigo dissociar meu mundo interior de minhas obras. Tudo se mistura ontologicamente existencial. Às vezes eu, bicho do mato, saio da toca, da loca, do escuro buraco em que vivo e busco outro tipo de vida e comida. Mas a toca, a loca, o buraco continua à minha espera. Lá é o seu lugar de segurança. Lugar em que a vida lhe traz segurança, significado e significância de existir. O fato de sair ao sol, esporadicamente, não me faz abandonar o gosto do silencio e da solidão. O meu ser/bicho/gente tem muito traquejo. Conheço muito bem dos manejos do viver.

Fale dos projetos em curso.

Nossas raízes se emaranham em solos existências frequentemente revisitados. E a vida se obstina em paisagens transitórias até que se instala em nosso peito (e alma) pedaços do seu existir. Fazendo-nos cor (e vida) por dentro de novas paisagens. Diante disto, tenho alguns projetos em curso. Em psicologia, a iniciação (em futuro próximo) de um mestrado tendo como linha de pesquisa a poética do invisível, em que buscarei compreender a importância do canto na etnia Caiapó. Nas artes plásticas, a conclusão de uma instalação composta por 30 peças, em MDF (ou aglomerado simples) intitulado Quo Vadis: De Adão a Zumbi – Todos os meus ossos dirão! Em relação a literatura, os projetos são diários e constantes. Cada dia é um fazer diferente. Uma busca. Uma contemplação. E basta de palavras, pois aprendi, desde cedo, a não ocupar o espaço (tempo) dos outros mais do que o necessário, e, por enquanto este foi o tempo necessário para você conhecer este sujeito estranho, com aspectos faciais rudes, mas que pensa, que observa, que analisa e que tira diversas conclusões a respeito de si e dos outros. Deste modo, finalizo dizendo o seguinte:

Quem me dera

um dia de sol.

Um dia

onde eu pudesse expressar

meus escusos sentimentos .

Onde a ampla querência

de meu humano coração

não me exigisse

uma urgência de vida,

mas,

uma interpretação

e exposição

da pluralidade de minha alma.

 

Quem me dera

um dia de sol

que não fosse embrutecido,

retido,

esterilizado pelas vísceras

de toda uma vida combalida.

 

Quem me dera

um dia de sol

e

sal.

 

Um dia

em que nuvens se abrissem

não somente aos raios de sol,

mas, também,

aos corpos em carícias,

aos gestos familiares

e aos passeios pelos parques.

 

Quem me dera

um dia de sol

na imensidão azul do céu.

 

Um dia

em que aves registrassem seus voos

sem medo das mãos dos passarinheiros.

Um dia

em que redes atadas tolerassem

a força do amor,

em que ventos soprassem doçuras

em vez de tempestade.

 

Um dia

que nosso destino

(remanso calmo)

nos trouxesse algo,

além do silêncio

e

da

solidão.

 

Um dia

em que pudéssemos

determinar

(sem medo,

sem exigências

e sem obrigações)

nossos textos existenciais.

 

Quem me dera

um dia de sol.

 

Um dia

sem rupturas

e sem traumas.

 

Um dia

em que a nossa tessitura

de vida

fosse telhados abertos

aos adventos do sol.

 

Um dia

em que pudéssemos abreviar

a força do vento.

 

Um dia

em que a esquadrinhação da vida

estivesse sobre os ombros

de todos os homens da terra.

 

Um dia

em que as referências,

inferências,

ânsias,

tolerâncias,

importâncias

e inconstâncias

de todos nós

fosse mesurada somente

pela pungência da vida.

 

Um dia

em que os jardins das casas

e os telhados sublimosos das dores

fossem empenhados

(primeiramente)

a conquistarem um lugar ao sol.

 

Um dia

em que os álbuns pátrios

e os gestos efusivos

fossem,

(e estivessem),

sublinhados de subterfúgios de vida.

 

Um dia

em que as pétalas se abrissem

à beira da estrada

sem medo da velocidade dos homens

e da poluição do ar.

 

Um dia

em que as conveniências da mãos

facilitassem as colheitas

nos roçados da vida.

 

Um dia

em que o próprio sol

não trouxesse pra dentro de nós

os seus celeiros de dor.

 

Um dia,

somente um dia de sol. [9]

 

Por Evan do Carmo

 

Para o portal: http://aquiaguasclaras.com.br

 

[1] OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de Pedra.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[2] OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de Pedra.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[3] OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de Pedra.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[4] Ibidem.

[5] OXORONGA, Alufa-Licuta. A celebração do caos. Ca?ú-Sociedade Cultural

[6] OXORONGA, Alufa-Licuta. A suprema indecência humana.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

 

[9] OXORONGA, Alufa-Licuta. Dos socovões da alma.  Ca?ú-Sociedade Cultural

Encontre a obra de Alufa no site http://www.editoradocarmo.com

 

 

 

 

ENTREVISTA COM A POETA FLORANITA PEREIRA

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Floranita Pereira

Quem é Floranita Pereira?

Diria que um ser plural,carregando muitos eus.
Quais?
A menina, sempre e suas fantasias,a mulher e suas paixões,a mãe e avó e o amor incondicional,o ser social engajado em algumas causas e o ser poeta que transita por todos esses seres e rouba de cada um a essência que fluirá e se fará  poesia conjugando tempo,razões e emoções na feitura do poema.
Esse é meu rosto entre dimensões que não me limitam,A flora que aflora em eterna floração da flor- poesia.

Quais foram as suas primeiras influencias para poesia?

Comecei a ler aos 12 anos,minha mãe lia muito tinha muitos livros em casa e fui lendo Emily Bronte,todos os livros do Érico Veríssimo,Sheakspeare,e então me caiu nas mãos uma antologia de poemas que ia desde os poetas portugueses do romantismo até o movimento modernista.Minha primeira paixão foi o poeta português Álvares de Azevedo.Fiquei  encantada pelo seu poema Lembrança de Morrer,seus sonetos de amor,por sua história que acaba como todos os poetas,pintores,músicos do século XIX com a tuberculose chamada de mal
do século.Esse poema que citei e um soneto de amor,ficaram gravados em minha mente.
Outros poetas me encantaram como Alphonsus de Guimarães e seu poema Ismalia,Cruz e Souza e sua Vida Obscura,Machado de Assis e seu Círculo Vicioso
Raimundo Correia e o Mal Secreto e  tantos outros,até chegar no qual
julgo ser  meu mestre,Carlos Drummond de Andrade,tamanho o encantamento por seu estilo,sua história,e um certo conhecimento de sua personalidade na intimidade de seu lar,já que era vizinho de uma minha uma  irmã que vivia no mesmo prédio no Rio de Janeiro, que a pedido de sua adorada  filha também escritora Maria Julieta,as vezes ia até seu apartamento onde morava com sua esposa Dolores,ver se estavam bem.
Me contava ela que ele era super tímido e reservado, quando abria sua porta,
mas seus poemas revelam uma outra identidade,totalmente distinta,
alma irreverente e apaixonada como se sente no poema Paixão Medida:

A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?

Toda obra Drummondiana foi uma grande influência em minha poesia assim
como outros poetas de outras nacionalidades como Emily Dickinson,Mayakovisk,
Florbella Spanca,Federico García Lorca,Borges e tantos outros.

Em que momento você sentiu a necessidade de fazer poesia?

O processo poético é mágico,para mim sempre foi assim.Uma catarse? Uma psicografia como no campo espiritualista? mais bem uma chuva de frases sem hora marcada caindo pesada na alma ora em ritmo brando,ora como tempestade
e nesse momento poderemos ou não transformar esse processo em  poema, cravando ou não  as palavras num papel ou outros meios,momento de uma certa revolução interior
Muitas vezes acontece quando estou dormindo e sonho e isso me faz acordar e escrevê-lo  ou não para ser lido despois,outras vezes logo que me recolho antes de cair no sono,outra vezes no meio do dia,ou no meio da noite,ou seja,acontece
aleatoriamente a um  determinado momento específico.

Que tipo leitura é imprescindível para um poeta ou escritor?

Diria que qualquer tipo de leitura,não só os poetas brasileiros ou de outras nacionalidades,mas também romances,livros sobre psicologia,os grandes filósofos de todas as épocas,livros que abordem temais sociais,políticos,porque tudo o que escreve um autor pode nos inspirar.Tudo gira em torno da humanidade e da vida.

Em que hora do dia você gosta de escrever?

Como disse acima,não há momento específico que eu goste de escrever.
Esse momento independe de minha vontade.Nao se pode pensar agora vou escrever.Nao,o processo é outro,é um momento único,mágico.

Qual é a temática da sua poesia?

Como um processo de catarse (individual) ou  de uma consciência coletiva minha
poesia fala de  emoções vividas,de minha comoção ante os fatos da vida
observada e sentida ou das fantasias que explodem em metáforas no corpo do poema.
Fala da natureza,do caos,do amor, enfim de tudo que me inspira.

Como acontece seu processo criativo?

Como disse anteriormente é um processo mágico
Transcrevo aqui o que publiquei na orelha de meu livro Na cor de minha palavra para explicar esse processo.
Fluindo em meu sangue pela descendência de gerações,como chuva branda ou incontrolável tempestade,surgiu em meu ser a poesia,essa doce e mágica arquiteta das palavras.
Gotejava em minha alma essa arte até então desconhecida de meu ser,que as 13 anos me foi intensamente revelada.
Nesse processo o poema se fazia tomava corpo,ritmo,muitas vezes com palavras desconhecidas para mim,que para minha surpresa,depois de consulta-las num dicionário,estavam perfeitamente encaixadas no contexto do poema.
Os sentidos ou vivências que os faziam aflorar em minha mente,os temas,eram muito maduros para minha pouca idade,era a magia da criação poética.
Desde muito cedo fiz das palavras minhas cúmplices e reveladoras companhias
muito raramente fazendo uso da pontuação convencional.
Aqui um poema escrito nos meus 14 anos,em 1959 que guardo em minha memória:

Desfilaremos
Sem Deus
Em largar alvoradas brancas
-chaga contra chaga-
-anseio contra anseio-
Para a definição do mundo
Em corpos que se abraçam
Contra o linho
Em almas que se despirem
Entre abismos.

Um escritor especial para você?

Leio muito poesia, e dentro desse contexto Drummond de Andrade num tempo mais passado.
Também outros grandes poetas nacionais ou não como Eunice Arruda,Sylvia Plath,Adélia Prado,Hilda Hilst,Lupe Cotrin Garaude,Alejandra Pzarnick,Alfonsins Storni,Júlio Cortazar,Denise Levertov,Elisabeth Bishop,Ferreira Goulart e outros.
Leio Saramago, Clarice Lispector,Vargas Lhosa,Kafka e outros clássicos..Na atualidade muitos poetas que se sobressaem  como Mariana Basílio,Marco Cremasco,meu  irmão Silva Neto,Evan do Carmo,Álvaro Alves de Faria e tantos outros que estão reverenciando a arte poética.

Como concilia trabalho com a literatura?

Atualmente estou aposentada, tenho o tempo livre para esperar a sua chamada.
Nos anos em que trabalhava quando ela chegava sempre achava um meio de transpo-la no papel,as vezes em guardanapo,escrevendo nas mãos,enfim não deixando que ela escapasse de ter sua feitura gravada em algum meio.

Um livro inesquecível?

Colocaria no plural, são muitos.
Logo quando comecei a ler,O tempo e o Vento de Érico Veríssimo ainda adolescente.
Muitos outros passaram por meus olhos ávidos,O velho e o mar,de Ernest Hemmingway,O Processo de Kafka,O livro dos seres imaginários de Borges,
Dom Quixote de Miguel de Cervantes,e todos os livros de meu mestre Carlos Drummond de Andrade.

Quem você gostaria de ter sido, se não fosse quem é?

Eu mesma,apenas com a maturidade e sabedoria que ganhei com a passagem dos anos já na minha juventude.Quem não?

Como os paulistas da sua região lidam com a poesia?

Com muita importância,já que São Paulo é e sempre foi desde anos passados um polo cultural muito grande,berço de grandes poetas e escritores como Paulo Bonfim,Guilherme de Almeida,Mário de Andrade,Haroldo de Campos,Hilda Hilst,Menotti del Pichia,Adélia Prado e tantos outros.. A forte modernização aliada aos novos conhecimentos culturais trazidos pelos imigrantes trouxeram à cidade um momento artístico e cultural único na história do país e do mundo. Artistas brasileiros, como a pintora Anita Malfati e o escritor Oswald de Andrade, e estrangeiros, como o escultor italiano Victor Brecheret, deram início a Semana de Arte Moderna. Foi um encontro de poetas, assim como escritores, artistas plásticos, arquitetos e músicos realizada em fevereiro de 1922, no Theatro Municipal.
Centro cultural da América Latina, São Paulo possui 101 museus, 282 salas de cinema e 146 bibliotecas e cerca de 40 centros culturais.
Grande, multicultural e intensa, São Paulo é pura inspiração e por isso transpira expressão artística.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

A única preocupação seria com a parte gramatical,se as palavras estão
devidamente acentuadas e escritas. Não tenho outra preocupação.
O poeta deve exercer seu ofício livremente,expondo seus sentimentos e emoções
com o intuito único de tocar a alma de quem o lê.

Fale-me dos seus livros publicados e de suas feituras.

Meu primeiro livro Meu espaço canto acontecido de 1973 foi publicação minha,ou seja fiz sua diagramação,bati os poemas na máquina,não havia computador na época,desenhei a capa,usei o  pseudônimo de Ivy Rabelo Lins,porque meu nome era imenso,tinha 4 sobrenomes e não quiz usá-lo, fui a uma gráfica.La fizeram o livro e me lembro da emoção ao vê-lo pronto.Destribui aos amigos,não fiz lançamento,apenas levei uns 10 livros numa livraria e deixei ali pra ser vendido em consignação.
Tempos depois recebi uma carta de um escritório da Library of Congress de Washington nos EUA no Rio de Janeiro,pedindo um exemplar do livro.
Eu mandei,e esse  livro está catalogado nessa biblioteca em Washington com aquele pseudônimo.
Meu segundo livro In versus Nós foi uma publicação da Editora Scortecci em 1999,fiz um lançamento conjunto com outros poetas mas não distribui os livros.
O terceiro, Na cor da minha palavra, foi lançado na Fnac de Pinheiros em julho de 2016.
Participei da antologia da REBRA,antologia em verso e prosa.
Participei de lançamentos de antologias em Lisboa,outros na Editora Matarazzo e na Editora do Carmo: Dez poetas e eu II,Desafio,Um brinde a poesia,O poeta é um fingidor e estarei participando da antologia Havia uma pedra no caminho.

Como você classifica a poesia atual brasileira?

São poucos  os poetas brasileiros da atualidade.
A poesia vai se desenhando pelos meandros de novos estilos,já não se limitam as rimas ou escritas convencionais,mais devotos  a uma espécie de fala que não aceita limites no âmbito social ou moral, uma poesia sem vivência, sem referências, superficial, sem qualquer preocupação com a função poética, sem conseguir alinhar forma e significado.
Parece haver mais quantidade que qualidade.Isso se observa nas redes sociais.
Há mais poetas do que nunca. A crítica quase inexiste e é incapaz de dar conta do que se publica em livros ou na rede.
Mas há poetas que ainda se sobressaem pelo conteúdo de sua poesia.Todos os citados acima.

Fale das suas frustrações com relação ao Brasil, sobretudo com respeito à política.

Frustração total com a falência política no Brasil.
Essa corrupção sistêmica que se estabeleceu acabou com nosso país,levando-o a uma derrocada econômica gerando o desemprego que assola as famílias mais pobres e inclusive achatando a classe média.
Nunca na história desse país se estabeleceu tanta corrupção e impunidade.
Os políticos já não representam o povoo.Fizeram da política cabide de emprego e meio de enriquecimento.
Espero que ao cabo dessas operações que se instalaram para acabar com isso possam limpar a casa e fazer do Brasil um país onde possamos viver e sermos respeitados pelos nossos governantes e respeitá-los também.

Por que resolveu morar fora do brasil?

Não me aconteceu isso,espero que não me aconteça,mas as vezes diante dos acontecimentos políticos me sinto arrasada e me dá vontade de sair daqui.

Família, o que representa para você?

A família é meu grande tesouro.
Representa tudo para mim.
Ajudei na criação de meus dois netos mais velhos que já estão com 27 e 22 anos  e continuo ajudando com os menores. Sou aquela avó presente na vida de meus netos.
A família  de meus ancestrais era numerosa e a família que formei também é.
Tenho 4 filhas e 11 netos maravilhosos,3 homens e 7 mulheres que  continuam a fazer do amor e do se dar a grande razão de nossas vidas.
Duas de minhas filhas moram nos EUA,vou quase todo ano visitar e estar com elas e meus 5 netos que vivem ali ,e duas aqui em São Paulo que estamos sempre juntas.
Ttenho minha mãe com 93 anos com muita saúde e 6 irmãos.Somos muito unidos,a paz e a amizade além do amor sempre reinou entre nós.
A família é a base de tudo.
Mesmo ante a evolução da família na sociedade atual,vemos a luta para se manter a família,mesmo na diversidade,já não a família tradicional vinda de casamentos tradicionais.

Fale dos projetos para o futuro.

Basicamente estar sempre envolvida na vida literária.
Estou fazendo parte de uma antologia em Lisboa,Poemario 2017 e da antologia
Havia uma pedra no caminho da Editora do Carmo.
Escrevendo para um próximo livro de poemas para o próximo ano.
Vivendo intensamente a poeta que existe em mim.

ENTREVISTA COM O POETA FÁBIO RENATO VILLELA

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Fábio Renato Villela

Fábio Renato, quem é você?

Já se disse que não somos. Apenas estamos… Amigo, nesse tempo em que estou, 59 anos já se passaram; estou divorciado e vivendo outro grande amor; sou pai de um anjo (Thyago) que é Sociólogo formado pela UNICAMP e Mestre em Artes Visuais pela USP/SP; ganho a vida com o que escrevo e aproveito em cada segundo esse conjunto de bênçãos que o mundo me dá.

Como definiria a poesia?

Como eu disse no poema abaixo:

O POEMA

O poema, nunca será apenas

a soma das palavras.

É mais o que se sente

e não se consegue guardar no peito.

Quando e como realmente começou escrever poesia ?

Tão logo aprendi a escrever, logo aos três anos de idade. Versos mancos, como eram os meus passos de então.

Qual a importância da poesia no mundo e pra você?

Só nela a verdade ganha forma e conteúdo. Apenas por ela sentimos o gosto de ser humanos. 

Um livro pode mudar a mente de uma pessoa, pode mudar o mundo, ou isto tudo é conversa de letrado?

Pode sim. Mas, o que é letrado? 

Como você ver o meio literário brasileiro, sobretudo para a poesia, acha possível alcançar o público da boa literatura sem uma editora importante?
Felizmente surgiu a WEB e com ela a liberdade para milhões de poetas e escritores publicarem e serem lidos, sem as antigas amarras que nos prendiam aos ditames das Editoras. Nesse quesito, aliás, penso que está a única grandeza desse triste tempo em que perdemos a Música, o Teatro e tantas outras formas de Cultura, que até há cerca de trinta anos fazia-nos referência no mundo.

Como publica e divulga sua obra?

Através de Editoras, pela WEB e através de Saraus, Palestras e Oficinas.

Fale-me dos seus livros, qual você destacaria como mais importante, se isto é possível para um autor.

Tenho 15 livros publicados e o que me é mais caro é o primeiro, onde narro a minha luta contra o câncer que me amola desde a primeira infância. Escrevi um Dicionário de Filosofia e mais dois livros sobre esse tema, os quais me deram a satisfação de serem referenciais para vários estudantes no Brasil e no Exterior; um Dicionário sobre as Divindades Hindus, que é o mais vendido até então; outro sobre a Bíblia Cristã; o mais recente sobre Óperas e outros com os meus poemas.

Quais os autores que lhe influenciam para escrita dos seus livros?

Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drumonnd de Andrade, Jorge Luis Borges, Saramago, Flaubert, Zola, Dostoiévski e vários outros. 

Você escreve além de poesia, outro tipo de literatura?

Sim, como disse acima, Filosofia Clássica, Moderna e Contemporânea, Óperas, Hinduísmo, Budismo, Jainismo, Ensaios políticos e filosóficos, crônicas e prosas poéticas. 

Envie três poemas.

Poesia, rima e vida

A poesia ficou rala
e o amor nada fala.
Restou a rua e a mala;
sou eu e o quarto sem sala.

A rima ficou pobre e rara.
A vida me custa os olhos da cara.
Maldição do bruxo canhalha
e da Morfina que sempre falha.

“Cest la vie . . .”
Perpétuo “Dejá Vú”.
A náusea, o horror que já senti.

Mas ainda bebo esperança,
afago a noite criança
e ando nova andança.
Menino de Rua
Espremi o mundo em busca do sumo,
mas não achei nem o rumo.
Nunca fui na Escola;
meu padrasto, faz-me de esmola.
E a fome me amola até sentir o baque da cola.
Limpo pára-brisas e rezo sem crença.
Sou sujo de nascença e de feia presença.
(No “tecido social” eu sou a doença,
como diz qualquer Dr. Excelência)
Peço ajuda à dona-tia-senhora
(louca para fugir sem demora)
e do seu medo eu lucro um trocado,
que logo gasto na “biqueira” ao lado.
Da boca sem dente, vem a vontade de ser gente.
Da boca banguela vem a vontade de sair da favela.
De ter um “cano” na fivela, arroz na panela
e até o amor da moça donzela
que peregrina em Santiago de Compostela.
Do meu nariz escorre suja coriza,
do macilento rosto despenca raiva e desgosto.
Eu sou o oposto.
Sou menino do Brasil e durmo sob o azul-anil
até que me acorde o cão-pastor do canil.
Levo a vida fugindo de “bala perdida”
e da santa caridosa bandida.
E sempre escuto: mude de vida!
Como se existisse tal saída.
Como se aqui, eu estivesse por escolha
dessa minha vista caolha.
Já lustrei sapatos e calçadas,
tomei todas as burguesas “porradas”
e não quero acreditar que isso ainda vai retornar.
Olham-me como ameaça.
Parido por desgraça de uma barriga cheia de cachaça.
Mas o que eu queria era ser só mais um.
Desses, que não metem medo e a quem se confia um segredo.
Desses, que choram pelo Poeta em degredo
ou das dores do samba-enredo.
É coisa pouca: casa, afeto, comida e roupa.
Poder dispensar a caridosa sopa,
servida pelo moço que quer o troco:
ser um  Santo (do pau oco).
Pois nessa vida nada se dá. Só se troca.
É o medo de acabar numa maloca, vendendo tapioca.
Mas agora, SENHOR, licença. O sinal fechou.
O esperto não vacilou,
mas a moça pequena só me olha com pena.
Por isso irá morrer.
Não sei assoprar. Só morder.
Uso o “estoque” como baliza e o sangue não me horroriza.
Sou bicho-fera: se bobear, “já era”.
Mas não se preocupe meu “bom burguês”.
Da Policia eu sou freguês e Posseiro em qualquer xadrês.
Logo ficarei sob outra tutela, sem velório, coroa e vela.
Não deixarei saudades e nem levarei amizades.
Irei sozinho na morte, como só, eu fui na vida.
Uma rebarba atrevida, dessa sociedade falida.

 

O Brilho

Foi preciso encontrar-te, Papillon,
para saber que a estrela
que eu julgava perdida,
brilha ao meu lado.

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Leia mais: http://correiobrasilia.webnode.com/news/entrevista-com-o-grande-poeta-fabio-renato-villela/

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